20. Anjo Mecânico – Burning Bright: O primeiro encontro de Jem e Tessa pelo ponto de vista dele

O violino do pai de Jem havia sido feito pelo artesão Guarneri, que fazia violinos para músicos tão famosos quanto Paganini. Jem pensava que na verdade seu pai poderia ter sido um Paganini, famoso no mundo inteiro, se não fosse Caçador de Sombras. Caçadores de Sombras podiam até se interessar por música, pintura ou poesia, principalmente depois de pararem de exercer seu trabalho, mas sempre seriam Caçadores de Sombras antes de tudo.

Jem sabia que não era tão talentoso com o violino como seu pai – que o havia ensinado a tocar quando ainda era pequeno o suficiente para ter dificuldade em equilibrar o pesado instrumento -, mas ele tocava-o por razões que iam muito além de meramente arte.

Essa noite, ele havia se sentido mal para acompanhar os outros no jantar – dor em seus ossos e uma preocupante sensação de cansaço no corpo – até que ele finalmente desistiu e tomou yin fen suficiente para acabar com a dor e dar um pouco de energia. Logo havia se irritado com a dependência e quando procurou Will, sempre o primeiro na linha de defesa contra o vício, seu parabai – claro – não estava lá. Fora de novo, Jem pensou, caminhando pelas ruas como Diogenes, porém com um objetivo menos nobre.

Então Jem havia voltado para seu quarto e seu violino. Ele estava tocando Chopin agora, uma peça que era originalmente para o piano, mas cuja seu pai havia adaptado para o violino. A música começa com suavidade e ia aumentando para um crescendo, um que iria tirar dele cada grama de energia, suor e concentração, deixando-o tão cansado a ponto de não sentir o desejo pela droga que arrancava suas terminações nervosas como fogo.

Era uma das peças pela qual seu pai havia encantado sua mãe, antes de eles se casarem. O pai de Jem era o romântico e sua mãe a prática, mas a música mexia com ela de todo modo. Seu pai havia insistido que ele aprendesse – “Eu toquei para minha noiva, e um dia você tocará para a sua.”

Mas eu nunca terei uma noiva. Ele não pensava nisso sentindo pena de si. Jem era como sua mãe: prático na maioria das coisas, até mesmo sua morte. Ele era capaz de manter uma distância do fato e examiná-lo. Cada uma das crianças do Instito era peculiar, pensava ele: Jessamine com sua amargura e casa de boneca, Will com suas mentiras e segredos, e Jem – o fato de ele estar morrendo era apenas outro tipo de peculiaridade.

Ele parou por um momento, com alta de ar. Ele estava tocando ao lado da janela, onde era mais agradável: ele havia aberto de leve, e o amargo ar de Londres tocou quase fisicamente seu cabelo e sua bochecha, enquanto as cordas do violino em sua mão se estabilizavam. Ele estava de pé em uma parte iluminada pela luz da lua, prata como o pó yin fen.

Ele fechou os olhos com força e se jogou novamente na música, o arco furiosamente nas cordas como um grito. Às vezes o desejo ela droga era quase maior que sua força de vontade, maior que o desejo por comida, por água ou ar, por amor…

Eu toquei para a minha noiva, e um dia você tocará para a sua. Jem pensava nisso decididamente. Às vezes ele se perguntava como deveria ser olhar para as garotas como Will, com seus olhos azuis escuro analisando-as, oferecendo insultos e elogios alto o suficiente para fazê-lo ser estapeado em quase todas as festas de Natal. Ele queria uma companhia casual às vezes, quando uma garota bonita flertava com ele, ou quando ele se sentia particularmente solitário.

Mas Jem não pensava, não podia pensar, em garotas tão casalmente: ele supunha que um relacionamento podia ser possível, mas não era o que ele queria. Ele queria o que seu pai havia tido – o tipo de amor sobre o qual os poetas escreviam. O jeito com que seus pais se olhavam, a paz que os rodeava quando estavam juntos. Uma cópia de amor não o traria isso, e se desperdiçasse tempo assim, ele poderia perder a oportunidade para a coisa real – e ele não teria muitas.

Uma pontada percorreu seu corpo quando sua necessidade da droga aumentou, e ele aumentou a velocidade com que estava tocando. Ele tentou não olhar para a caixa em sua cabeceira. Era em horas como essa que ele se perguntava por que não pegava montes da droga de uma vez só. A maioria dos viciados em yin fen tomava-a incessantemente até morrerem pela sensação eufórica de se sentir indomável e nunca cansar-se, de ter a força e o poder de uma estrela. Era a euforia que acabava matando-os no final, queimando seus nervos, esmagando seus pulmões e exaurindo seus corações.

Às vezes Jem desejava arder. Às vezes ele não sabia porque lutava contra isso, porque dava valor a uma longa vida de sofrimento mais do que a uma vida mais curta sem dor. Então ele se lembrava que a ausência da dor seria apenas uma ilusão: como a casa de bonecas de Jessamine, as histórias de bordéis e palácios de gin de Will.

E se ele fosse realmente honesto, ele sabia que acabaria com suas chances de encontrar o amor que seus pais um dia tiveram. Por que isso era o que amor significava, não era? – ser o brilho que arde nos olhos de alguém?

Ele continuou a tocar. A música havia subido para um crescendo. Ele estava ofegando, suor brotando de seu corpo apesar do frio do ar noturno. Ele ouviu o som da porta do quarto se abrindo atrás dele e alívio se espalhou dentro dele, porém ele não parou de tocar. “Will,” disse ele depois de um tempo. “Will, é você?”

Houve apenas silêncio, algo que não era característico de Will. Talvez Will estava iritado com alguma coisa. Jem abaixou o arco e se virou, franzindo a testa. “Will – “, começou ele.

Mas não era Will. Uma garota estava em pé hesitantemente na porta de seu quarto. Uma garota com uma camisola e um robe em cima. Os olhos cinzas dela estavam pálidos à luz da lua, mas calmos, como se nada sobre sua aparência havia assustado-a. Ela é a feiticeira, ele percebeu de repente; aquela sobre a qual Will tinha contado a ele mais cedo, porém Will não havia mencionado a calma que emanava dela que fazia Jem se sentir relaxado apesar de seu desejo pela droga; ou o pequeno sorriso em seus lábios que iluminava seu rosto. Ela deveria estar lá há alguns momentos, ouvindo-o tocar: a evidência que ela tinha gostado estava em sua expessão e na inclinação sonhadora de sua cabeça.

“Você não é Will,” disse ele, e imediatamente percebeu que era uma coisa realmente idiota para se dizer. Quand ela começou a sorrir, ele sentiu um sorrisod e volta começando em seus lábios – por tanto tempo Will havia sido a pessoa que ele mais queria que o visse quando ele estava desse jeito e agora, pela primeira vez, ele se sentia satisfeito de não ver seu parabatai, mas outra pessoa ao invés.

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