02. Cidade dos Ossos – A Promessa de Magnus (Magnus Vow)

A Promessa de Magnus (Magnus’s Vow)

Magnus Bane estava deitado no chão do seu loft no Brooklyn, olhando para o teto nu acima. O chão estava ligeiramente grudento, como a maioria do apartamento. Vinho de fadas misturado com sangue se derramava no chão, correndo em riachos ao longo das tábuas do soalho que soltava farpas. O bar, que tinha sido uma porta apoiada sobre duas latas de lixo de metal dentado, havia sido arruinado em algum ponto da noite durante uma vigorosa briga entre um vampiro e Bat, um dos lobisomens do bando da cidade. Magnus se sentiu satisfeito. Não era uma boa festa a menos que algo fosse quebrado.

Passos mansos vieram pelo chão na direção dele e algo se enrolou sobre seu peito: algo pequeno, macio e pesado. Ele olhou para cima e se descobriu encarando um par de grandes olhos douradoesverdeados que combinavam com os seus próprios. Presidente Miau. Ele afagou o gato, o qual afundou feliz suas garras na camisa de Magnus. Um pouco de serpentina caiu do teto e pousou nos dois, fazendo com que Presidente Miau pulasse para o lado. Com um bocejo, Magnus sentou. Ele normalmente se sentia assim depois de uma festa – cansado, mas acabado demais para dormir. Sua mente estava repassando os eventos da noite, mas, como um CD arranhado, continuava voltando ao mesmo ponto e girando nele, mandando suas memórias em uma espiral.

Aquelas crianças Caçadoras de Sombras. Ele não tinha se surpreendido que Clarissa o tivesse finalmente encontrado. Ele sabia que os feitiços para bloquear lembranças de Jocelyn não funcionariam para sempre. Ele havia dito isso a ela, mas ela estava determinada a proteger a garota pelo tempo que pudesse. Agora que ele a conhecera, consciente e alerta, ele imaginava se ela realmente teria precisado de toda aquela proteção. Ela era ardente, impulsiva, corajosa – e sortuda, como sua mãe. Isso se você acreditasse em sorte. Mas algo deve tê-la guiado aos Caçadores de Sombras do Instituto, possivelmente os únicos que podiam protegê-la de Valentim. Uma pena que Maryse e Robert estavam fora. Ele havia feito acordos com Maryse mais de uma vez, mas fazia anos desde que vira a geração mais jovem.

Ele tinha uma vaga memória de visitar Maryse e Hodge e lá estarem dois meninos no corredor, com uns onze anos de idade, batalhando de um lado pro outro com lâminas serafim de modelo inofensivo. Uma garota com cabelos pretos em duas tranças os assistia e vociferava reclamando por não estar incluída. Ele mal os havia notado na época.

Mas agora – vê-los o havia abalado, especialmente os meninos, Jace e Alec. Quando se tinha tantas memórias, às vezes era difícil identificar exatamente a que queria, como folhear um livro de dez mil páginas para encontrar o parágrafo correto.

Desta vez, no entanto, ele soube.

Ele engatinhou pelo chão com farpas e se ajoelhou para abrir a porta do closet. Lá dentro, ele puxou de lado roupas e diversos pacotes e poções, tateando pelas paredes procurando o que queria. Quando emergiu, tossindo com as bolas de poeira, arrastava um baú de tamanho considerável. Ainda que tivesse vivido muito tempo, ele tendia a viajar leve: a manter muito poucas lembranças do seu passado. Ele sentia de alguma forma que elas o exauririam, impedindo-o de seguir adiante. Quando se vivia para sempre, só se podia passar um certo tempo olhando para trás.

Já fazia tanto tempo desde que ele havia destrancado o baú que ele abriu com um ranger de dobradiças que fez com que Presidente Miau deslizasse para baixo do sofá, sua cauda em espasmos. Os objetos empilhados dentro do baú pareciam o tesouro de um dragão indelicado. Alguns objetos brilhavam com metal e pedras preciosas – Magnus puxou para fora uma velha caixa de rapé, com as iniciais WS escritas no topo em rubis cintilantes, e sorriu do gosto ruim da coisa, e também das memórias que ela evocava. Outros pareciam pouco notáveis: uma fita de seda creme desbotada que tinha sido de Camille; uma caixa de fósforos do Cloud Club com as palavras “Eu sei o que você é” escritas na parte de dentro em caligrafia feminina; uma quintilha humorística assinada OFOWW; um papel meio queimado do Hong Kong Club – um lugar no qual ele havia sido barrado não por ser um feiticeiro, mas por não ser branco. Ele tocou um pedaço retorcido de corda quase no fundo da pilha e pensou em sua mãe. Ela tinha sido a filha de um colonialista holandês e de uma indonésia que morreu no parto e cujo nome Magnus nunca soube.

Ele estava quase no fundo do baú quando encontrou o que estava procurando e puxou para fora, espiando: uma fotografia de papel em preto-e-branco montada em cartolina dura. Um objeto que realmente não deveria ter existido, e não teria se Henry não houvesse sido obcecado com fotografia. Magnus podia lembrar-se dele agora, mergulhando para dentro e para fora do seu capuz de fotógrafo, correndo com as chapas molhadas para a sala escura que ele tinha montado na cripta para revelar o filme, gritando com seus modelos fotográficos para ficarem parados. Aqueles eram os dias em que, para produzir uma fotografia precisa, era necessário ficar sem se mover durante minutos de cada vez. “Nada fácil”, pensou Magnus, o canto da boca virando para cima, “para a equipe do Instituto de Londres”. Lá estava Charlotte, seus cabelos escuros em um coque prático. Ela estava sorrindo, mas ansiosamente, como se olhasse de relance para o sol. Ao seu lado estava Jessamine com um vestido que parecia preto na foto, mas Magnus sabia que havia sido azul escuro. Seus cabelos formavam cachos e fitas caíam como córregos de seu chapéu. Ela parecia muito bonita, mas muito infeliz. Ele imaginou como ela reagiria a alguém como Isabelle: uma garota de sua idade que obviamente amava Caçar Sombras, que exibia seus hematomas e as cicatrizes de suas marcas como se fossem jóias ao invés de escondê-los com renda Mechlin.

Do outro lado de Charlotte estava Jem, parecendo um negativo fotográfico dele mesmo com seus cabelos prateados e olhos que se tornaram quase brancos; sua mão repousava na sua bengala de jade com topo de dragão, e seu rosto se voltava para o de Tessa. Tessa – seu chapéu estava em suas mãos e seus longos cachos castanhos esvoaçavam livres, levemente borrados pelo movimento. Havia um leve halo de luz ao redor de Will: como convinha a sua natureza e não surpreenderia a
ninguém que o tivesse conhecido, ele não havia sido capaz de ficar parado para a fotografia. Como sempre, ele não usava chapéu, seus cabelos pretos se enrolando contra as têmporas. Era uma perda não poder ver a cor dos seus olhos, mas ele ainda era lindo e jovem e parecia um pouco vulnerável na fotografia, com uma mão no bolso e a outra na nuca.

Já fazia tanto tempo desde que Magnus olhara a fotografia que a semelhança entre Will e Jace o atingiu de repente. Ainda que fosse Alec quem tivesse aqueles cabelos pretos e aqueles olhos – aquele azul escuro muito surpreendente – era Jace quem tinha mais da personalidade de Will, ao menos na superfície. A mesma arrogância afiada escondendo algo quebrável por baixo, a mesma perspicácia aguçada…

Ele contornou o halo de luz ao redor de Will com um dedo e sorriu. Will não havia sido nenhum anjo, porém não havia sido tão defeituoso como alguns poderiam ter pensado. Quando Magnus pensava em Will, mesmo agora, pensava nele pingando água da chuva no tapete de Camille, implorando a Magnus por uma ajuda que ninguém mais podia dar a ele. Fora Will quem o apresentara à ideia de que Caçadores de Sombras e membros do Submundo poderiam ser amigos.

Jem era a outra, melhor, metade de Will. Ele e Will haviam sido parabatai, como Alec e Jace, e compartilhavam a mesma evidente proximidade. E ainda que Alec não parecesse a Magnus nem um pouco semelhante a Jem – Alec era agitado e doce, sensível e preocupado, enquanto Jem tinha sido calmo, raramente se incomodava, mais velho que seus anos de idade – ambos eram peculiares em se tratando de Caçadores de Sombras. Alec externava uma inocência profunda que era incomum entre Caçadores de Sombras – uma qualidade que, Magnus tinha de admitir, o atraía como uma mariposa para uma chama, apesar do seu próprio cinismo.

Magnus olhou de novo para Tessa. Mesmo que não fosse convencionalmente bonita do jeito que Jessamine havia sido bonita, seu rosto estava vivo com energia e inteligência. Seus lábios se curvavam para cima nos cantos. Ela se encontrava, como Magnus supunha ser apropriado, entre Jem e Will.

Tessa. Tessa, que, como Magnus, vivia para sempre. Magnus olhou para os detritos na caixa – memórias de amores passados, alguns cujos rostos haviam ficado com ele tão claros como no dia em que os vira pela primeira vez, e alguns cujos nomes ele mal lembrava. Tessa, que como ele, havia amado um mortal, alguém que era destinado a morrer enquanto ela não era. Magnus devolveu a fotografia ao baú. Ele balançou a cabeça, como se pudesse limpá-la das memórias. Havia uma razão para ele raramente abrir o baú. Memórias o exauriam, o lembravam do que ele havia possuído mas não tinha mais. Jem, Will, Jessamine, Henry, Charlotte – de certa forma era incrível que ele ainda lembrasse seus nomes. No entanto, conhecê-los havia mudado sua vida.

Conhecendo Will e seus amigos tinha feito Magnus jurar para si mesmo que ele nunca mais se envolveria em assuntos pessoais de Caçadores de Sombras. Porque quando você os conhecia, você acabava se importando com eles. E quando você se importava com mortais, eles partiam seu coração.

E eu não vou – ele disse ao Presidente Miau solenemente, talvez um pouco embriagado – Eu não ligo para o quanto eles são charmosos ou quão corajosos ou mesmo o quanto parecem desamparados. Eu não vou nunca, nunca, jamais…

Lá embaixo, a Campainha tocou, e Magnus se levantou para atendê-la.

Traduzido por Lígia Carneiro