Depois da Ponte (Conteúdo Extra)

Uma história para aqueles que imaginam o que Tessa e Jem fizeram depois que se encontraram na ponte Blackfriars no epílogo de Princesa Mecânica.
Aqueles que não gostam de Tessa & Jem juntos ou dos momentos sexys dos dois provavelmente deveriam pular isso aqui. Aqueles que gostam desse tipo de coisa irão encontrar exatamente o tipo de coisa que gostam.
Os pontos de vista em Depois da Ponte serão alternados entre Jem e Tessa. E estão separados em parte.

– Cassandra Clare

Depois da Ponte

Agora é a hora do nosso conforto e plenitude.
Esses são os dias pelos quais temos buscado
Nada pode nos tocar e nada pode nos causar mal
E nada mais dará errado

Keane – Love Is The End

PRIMEIRA PARTE

Com o caminhar das coisas, Tessa possuía um apartamento seu em Londres. Era o segundo andar de uma casa pálida em Kensington, e enquanto os dois entravam – sua mão tremendo suavemente enquanto ela virava as chaves – ela explicou a Jem que Magnus havia ensinado-lhe como feiticeiros poderiam obter casas para si fazendo com que seus donos as doassem de boa vontade.

“Depois de um tempo eu apenas comecei a escolher nomes bobos para mim.”, ela disse fechando a porta atrás deles. “Eu acho que consegui esse lugar com o pseudônimo de Bedelia Codfish.”

Jem riu, apesar de sua mente estar apenas meio focada nas palavras dela. Ele observava o apartamento – as paredes estavam pintadas com cores brilhantes: uma sala de estar lilás, com sofás brancos dispersos, uma cozinha verde abacate. Ele imaginou quando e porque Tessa havia comprado aquele apartamento. Ela havia viajado tanto, porque estabelecer um lar em Londres?

A pergunta transformou-se em pó em sua garganta quando ele se virou e percebeu que através da fresta de uma porta era possível observar as paredes azuis do que parecia ser um quarto.

Ele ficou parado, sua boca seca de repente. A cama de Tessa. Onde ela dormia.

Ela olhou para ele. “Você está bem?”

Ela o pegou pelo pulso e ele sentiu seus batimentos saltarem sob seu toque. Até ele se tornar um Irmão do Silêncio, isso sempre acontecera. Ele havia imaginado durante o tempo que passou em Idris, depois que o fogo celestial o havia curado, se ainda se sentiria dessa maneira: se seus sentimentos humanos retornariam para ele. Ele havia sido capaz de tocá-la e estar perto dela como um Irmão do Silêncio sem desejá-la como acontecia quando era mortal. Ele ainda a amava, mas era um amor de espírito e não corporal. Ele imaginava – temendo até, que os sentimentos físicos e as respostas não retornariam como haviam retornado. Ele havia dito para si mesmo que mesmo que a Irmandade do Silêncio matasse a habilidade de manifestação de seus sentimentos físicos ele não ficaria desapontado. Ele havia dito para si mesmo para esperar por isso.

Ele não deveria ter se preocupado.
No momento em que avistou-a na ponte, vindo em sua direção através da multidão em seus jeans modernos e com seu lenço, seu cabelo ondulando ao seu redor, ele sentiu sua respiração presa na garganta.

E quando ela tirou o pingente de Jade que ele havia dado para ela do pescoço e timidamente oferecido a ele, seu sangue ribombou em vida em suas veias, como um rio sem nome.

E quando ela disse, “Eu te amo. Eu sempre amei, e eu sempre amarei”, ele lutou com todas as suas forças para não beijá-la naquele momento. Ou fazer mais que beijá-la.

Mas, se a Irmandade havia lhe ensinado alguma coisa, foi o controle. Ele olhou para ela agora e lutou para manter a voz firme. “Um pouco cansado,” disse ele. “E com sede — Eu esqueço, às vezes, que preciso comer e beber agora.”

Ela deixou cair as chaves em uma pequena mesa lateral de jacarandá, se virou e sorriu para ele. “Chá,” ela disse, movendo-se em direção à cozinha verde-abacate. “Eu não tenho muita comida aqui, eu não costumo ficar muito tempo aqui, mas eu tenho chá. E biscoitos. Vá para a sala de estar; Eu já vou pra lá.”

Ele teve que sorrir para aquilo; mesmo que ele não conhecesse ninguém que falasse sala de estar mais. Talvez ela estivesse tão nervosa quanto ele, então? Ele só poderia esperar.

Tessa xingou silenciosamente pela quarta vez enquanto se curvava para recuperar a caixa de cubos de açúcar do chão. Ela já tinha colocado a chaleira no fogo, sem água nela, misturado os sacos de chá, derrubado leite, e agora isso. Ela deixou cair o cubo de açúcar dentro das duas xícaras de chá e disse a si mesma para contar até dez, enquanto observava os cubos dissolverem.

Ela sabia que as suas mãos estavam tremendo. Seu coração disparado. James Carstairs estava em seu apartamento. Em sua sala de estar. À espera de chá. Parte de sua mente gritava que era apenas Jem, enquanto a outra parte chorava tão alto quanto que Jem era alguém que ela não via em cento e trinta e cinco anos.

Ele havia sido o Irmão Zachariah por tanto tempo. E, claro, ele sempre foi Jem acima de tudo, com a sagacidade e bondade infalível de Jem. Ele nunca havia falhado em seu amor por ela ou por Will. Mas Irmãos do Silêncio — eles não sentem as coisas como as pessoas comuns.

Era algo que ela pensava, às vezes, nos últimos anos, muitas décadas depois da morte de Will. Ela nunca quis ninguém, ninguém além de Will e Jem, e ambos haviam partido pra ela, mesmo que Jem ainda estivesse vivo. Ela havia imaginado, ás vezes, o que eles teriam feito se apenas fosse proibido para Irmãos do Silêncio se casar ou amar; mas era mais que isso: ele não podia desejá-la. Ele não tinha esses sentimentos. Ela se sentia como Pygmalion, ansiando pelo toque de uma estátua de mármore. Irmãos do Silêncio não têm desejos físicos para o toque, não mais do que eles tinham necessidade para comida ou água.

Mas agora…

“Eu esqueço, às vezes, que preciso comer e beber agora.”

Ela pegou as canecas de chá com as mãos ainda trêmulas e entrou na sala de estar. Ela a tinha decorado sozinha ao longo dos anos, desde as almofadas do sofá até a longa tela japonesa pintada com um design de papoulas e bambu. As cortinas emoldurando a janela na outra extremidade da sala estavam entreabertas, com a quantidade suficiente de luz entrando na sala para tocar as mechas douradas nos cabelos pretos de Jem, e ela quase derrubou as xícaras de chá.

Eles haviam mal se tocado na viagem de táxi de volta ao Queen’s Gate, apenas segurando firmemente as mãos na parte de trás do táxi. Ele havia corrido os dedos pelas costas dos dedos dela, e de novo quando ele começou a contá-la a história de tudo o que havia acontecido desde que ela esteve em Idris pela última vez, quando a Guerra Maligna, na qual ela havia lutado, havia terminado. Quando Magnus tinha mostrado Jace Herondale para ela, e ela havia olhado para um menino que tinha o lindo rosto de Will e olhos como os do seu filho, James.

Mas o cabelo dele era igual o do pai, aquele emaranhado de ricos cachos dourados, e lembrando do que ela sabia sobre Stephen Herondale, ela se virou sem falar.

Herondales, alguém havia dito a ela uma vez. Eles eram tudo o que os Caçadores de Sombras podiam oferecer, tudo em uma família: os melhores e os piores.

Ela colocou as xícaras na mesa de centro – um velho baú, coberto de selos de suas muitas viagens – com uma forte batida. Jem se virou para ela e ela viu o que ele segurava em suas mãos.

Uma das estantes guardavam uma exposição de armas: coisas que ela pegava ao redor do mundo. Uma fina misericorde, uma kris curva, uma faca de trincheira, uma espada curta, e dezenas de outras. Mas a que Jem pegara e estava olhando era uma fina lâmina wasa de prata, seu cabo, escurecido por muitos anos de sepultamento na sujeira. Ela nunca a havia limpado, pois a mancha na lâmina era o sangue de Will. A lâmina de Jem, o sangue de Will, enterrados juntos nas raízes de um carvalho, um tipo de magia solidária que Will havia feito quando ele pensou que ele havia perdido Jem para sempre. Tessa a tinha recuperado depois da morte de Will e oferecido a Jem; ele tinha recusado pegá-la.

Isso havia sido em 1937.

“Fique com ela,” ele disse agora, a sua voz áspera. “Ainda pode vir um dia.”
“Isso foi o que você me disse.” Ela moveu-se em direção a ele, seus sapatos batendo no chão de madeira. “Quando eu tentei dar ela a você.”

Ele engoliu, correndo seus dedos por sobre a lâmina. “Ele tinha acabado de morrer,” ele disse. Ela não precisava perguntar quem ele era. Havia apenas um único Ele quando eram os dois falando. “Eu estava com medo. Eu vi o que aconteceu com os outros Irmãos do Silêncio. Eu vi como eles se endureciam ao longo do tempo, perdiam a pessoa que eles eram. Quando as pessoas que os amavam e que eles amavam morriam, eles se tornavam menos humanos. Eu fiquei com medo de que eu iria perder a minha habilidade de me importar. De saber o que essa lâmina significava para WIll e o que Will significava para mim.”
Ela colocou as mãos no ombro dele. “Mas você não se esqueceu.”
“Eu não perdi todos que amava.” Ele olhou para ela, e ela viu que os olhos dele tinham dourado também, preciosos flocos brilhantes entre o marrom. “Eu tinha você.”

Ela soltou o ar; seu coração estava batendo tão forte que o peito dela doía. Então ela viu que ele esta apertando a lâmina da faca, não apenas o cabo. Rapidamente ela a tirou das mãos dele. “Por favor, não,” ela disse. “Eu não posso desenhar uma iratze.”
“E eu não tenho uma estela,” ele disse, olhando enquanto ela colocava a faca de volta na estante. “Eu não sou um Caçador de Sombras agora.” Ele olhou para as mãos; havia finas linhas vermelhas em suas palmas, mas ele não tinha cortado a pele.
Impulsivamente, Tessa inclinou-se e beijou as mãos dele, depois fechou-as, suas próprias mãos envolta das dele. Quando ela olhou para cima, as pupilas dele tinham aumentado. Ela podia ouvir a respiração dele.
“Tessa,” ele disse. “Não.”
“Não o que?” Ela se afastou dele, porém, instintivamente. Talvez ele não queria ser tocado, embora na ponte, não tivesse parecido ser assim…
“Os Irmãos me ensinaram controle,” ele disse, a sua voz firme. “Eu tenho todo o tipo de controle, e eu os aprendi por décadas e décadas, e eu estou usando todos eles agora para não te pressionar contra a estante e te beijar até que nenhum de nós possa respirar.”
Ela levantou o queixo. “E o que tem de errado nisso?”
“Quando eu era um Irmão do Silêncio, eu não me sentia como um homem normal,” ele disse. “O vento no meu rosto ou o sol na minha pele ou o toque de outra mão. Agora eu sinto tudo isso. Eu sinto – demais. O vento é como um trovão, o sol queima, e o seu toque me faz esquecer meu próprio nome.”

Uma pontada de calor lanceou através dela, um calor que começa no seu estômago e se espalhava por todas as partes de seu corpo. Um tipo de calor que ela não sentia há tantas décadas. Quase um século. A sua pele se arrepiou toda. “Com o vento e o sol você irá se acostumar,” ela disse. “Mas o seu toque me faz esquecer meu nome também, e eu não tenho desculpas. Apenas que eu te amo, e eu sempre amei e sempre amarei. Eu não irei te tocar se você não quiser, Jem. Mas se nós estamos esperando até que a ideia de ficarmos juntos não nos assuste, nós vamos esperar por um longo tempo.”

A respiração lhe escapou em um assobio. “Diga isso de novo.”
Intrigada, ela começou: “Se nós estamos esperando até que -”
“Não,” ele disse. “A parte de antes.”
Ela inclinou o rosto para ele. “Eu te amo,” ela disse. “Eu sempre amei e sempre amarei.”

Ela não sabia quem foi em direção a quem primeiro, mas ele a segurou pela cintura e a estava beijando antes que ela pudesse tomar outra respiração. Esse não era como o beijo na ponte. Havia tido uma comunicação silenciosa de lábios nos lábios, a troca de uma promessa e uma garantia. Tinha sido doce e destruidor, um tipo de trovoada gentil.

Isso era uma tempestade. Jem a estava beijando, rígido e esmagador, e quando ela abriu os lábios dele com os dela e provou o interior da boca dele, ele suspirou e a puxou mais forte contra ele, suas mãos apertando os quadris dela, a pressionando para mais perto dele enquanto ele explorava os lábios e língua dela, acariciando, mordendo, e depois beijando para aliviar a dor. Nos dias antigos, quando ela o tinha beijado, ele tinha gosto de açúcar amargo: agora ele tinha gosto de chá e – pasta de dente?
Mas porque não pasta de dente. Mesmo Caçadores de Sombras de um século tinham que escovar os dentes. Uma pequena risada nervosa escapou dela e Jem se afastou, parecendo atordoado e deliciosamente amarrotado. Os cabelos estavam para todos os lados por ela ter corrido as mãos por eles.

“Por favor não me diga que você está rindo porque eu beijo tão mal que é engraçado,” ele disse, com um sorriso torto. Ela podia sentir a preocupação real dele. “Eu posso estar um pouco sem prática.”
“Irmãos do Silêncio não beijam muito?” ela brincou, alisando a frente do suéter dele.
“A não ser que tivesse orgias secretas para a qual eu não fui convidado,” Jem disse. “Eu sempre me preocupei em talvez não ser tão popular.”
Ela apertou as mãos ao redor dos pulsos dele. “Venha aqui,” ela disse. “Sente aqui – tome um pouco de chá. Tem algo que eu quero te mostrar.”

Ele foi, como ela havia pedido, e sentou-se no sofá de veludo, recostando-se nas almofadas que ela tinha costurado sozinha do tecido que tinha comprado na Índia e Tailândia. Ela não podia conter um sorriso – ele parecia apenas um pouco mais velho do que ele era quando se tornou um Irmão do Silêncio, como um jovem normal de jeans e suéter, mas ele sentava de um jeito que um homem vitoriano sentaria – costas retas, pés apoiados no chão. Ele pegou o olhar dela e sua própria boca se levantou nos cantos . “Tudo bem,” ele disse. “O que você tem para me mostrar?”

Em resposta, ela foi até a tela japonesa esticada em um canto da sala, e foi para trás dela. “É uma surpresa.”
Seu manequim estava lá, escondido do resto da sala. Ela não podia o ver atrás da tela, apenas um contorno borrado de formas. “Converse comigo,” ela disse, puxando o suéter por cima da cabeça. “Você disse que era uma história de Lightwoods e Fairchilds e Morgensterns. Eu sei um pouco do que aconteceu – eu recebi a sua mensagem enquanto estava no Labirinto – mas eu não sei como a Guerra Maligna afetou a sua cura.” Ela jogou o suéter por cima da tela. “Você pode me dizer?”
“Agora?” ele disse. Ela o ouviu abaixar a xícara de chá.
Tessa chutou os sapatos e abriu o zíper dos jeans, o som alto na sala quieta. “Você quer que eu saia de trás dessa tela, James Carstairs?”
“Definitivamente.” A voz dele parecia estrangulada.
“Então comece a falar.”

SEGUNDA PARTE

Jem falou. Ele falou sobre os dias sombrios em Idris, do exército de Crepusculares de Sebastian Morgenstern, de Jace Herondale e Clary Fairchild e as crianças Lightwood e a perigosa jornada deles para Edom.

“Eu ouvi sobre Edom,” ela disse, sua voz abafada. Fala-se sobre lá no Labirinto Espiral, onde eles acompanham as histórias de todos os mundos. Um lugar onde os Nephilim foram destruídos. Um deserto.”
“Sim,” disse Jem, um pouco distraído. Ele não podia vê-la através da tela, mas ele podia ver o contorno do corpo dela, e isso era algo pior. “Deserto queimando. Muito… quente.”

Ele tinha medo de que os Irmãos do Silêncio tivessem tirado o desejo dele: que ele iria olhar para Tessa e sentir amor platônico mas não ser capaz de querer, mas o oposto era verdade. Ele não conseguia parar de desejar. Ele queria, ele pensou, mais do que jamais antes em sua vida.

Ela estava claramente trocando de roupa. Ele olhou para baixo rapidamente quando ela começou a dançar para fora dos jeans, mas não era como se ele pudesse esquecer a imagem, a silhueta dela, cabelos longos e longas, lindas pernas – ele sempre amou as pernas dela.

Certamente ele havia sentido isso antes, quando ele era um menino? Ele se lembrou da noite em seu quarto quando ela o havia impedido de destruir seu violino, e ele desejou então, desejou tanto que ele não havia pensado quando eles desabaram na cama dele: ele teria tido a inocência dela, e dado a sua própria, sem um pensamento momentâneo do futuro. Se eles não tivessem batido na caixa de yin fen. Se. Isso o trouxera de volta, o lembrou de quem ele era, e quando ela foi embora, ele rasgou os lençóis em tiras com os dedos de pura frustração.
Talvez fosse esse desejo lembrado nada em comparação com o sentimento em si. Ou talvez ele estivesse doente, mais fraco. Ele estava morrendo afinal de contas e, certamente o seu corpo não poderia ter se sustentado.

“Uma Fairchild e um Herondale,” ela disse. “Agora, eu gosto disso. Os Fairchild sempre foram práticos e os Herondale – bem, você sabe.” Ela parecia afeiçoada, entretida. “Talvez ela irá sossegá-lo. E não me diga que ele não precisa ser sossegado.”

Jem pensou sobre Jace Herondale. Como ele era parecido com Will se alguém tivesse acendido um fósforo e o dourado em fogo vivo. “Eu não tenho certeza se é possível acalmar um Herondale, e certamente não esse.”

“Ele a ama? A menina Fairchild?”

“Eu nunca vi alguém tão apaixonado, exceto…” A voz dele sumiu, quando ela saiu de trás da tela, e agora ele entendeu o que a levara tanto tempo.

Ela estava usando um vestido de orquídea de seda, do tipo que ela usaria para jantar quando eles estavam noivos. Terminava com cordas de veludo brancas, a saia aparecendo por baixo — ela estava usando crinolina?

A boca dele se abriu. Ele não conseguiu evitar. Ele havia a achado bela através dos séculos: bela nas roupas cuidadosamente cortadas nos anos das guerras, quando as fábricas estavam em racionamento. Bela nos vestidos elegantes dos anos 50 e 60. Bela em minissaias e botas quando o fim do século se aproximava.

Mas isso era como garotas eram quando ele as notou pela primeira vez, pela primeira vez achando-as fascinantes e não irritantes, reparando nas linhas suaves do pescoço ou a pele clara na parte interna de um pulso feminino. Essa foi a Tessa que pela primeira vez o atravessou com amor e luxúria misturados: um anjo carnal com um espartilho emoldurando seu corpo como uma ampulheta, levantando seus seios e modelando o formato de seus quadris.

Ele forçou seus olhos para longe do corpo dela. Ela tinha prendido o cabelo, pequenos cachos escapando em cima das orelhas, e seus pingente jade brilhava em torno de sua garganta.

“Você gostou?”, disse ela. “Eu tive que arrumar meu cabelo sozinha, sem Sophie, e amarrar meus laços sozinha…” A expressão dela era tímida e um pouco nervosa — sempre tinha sido uma contradição característica dela, que ela era sempre uma das pessoas mais corajosas e tímidas que ele conhecia. “Eu comprei em Sotheby’s — um antiquário, agora, e foi caro demais, mas me lembrou de quando eu era uma garota e você disse que orquídea era sua flor preferida e eu estava determinada a encontrar um vestido da cor de uma orquídea, mas não consegui antes que você… se fosse. Mas esse é. É tingido, acredito, nada natural, mas eu acho — acho que isso ia te lembrar…” Ela levantou o queixo. “De nós. Do que eu queria ser para você, quando pensei que ficaríamos juntos.”

“Tess”, ele disse, roucamente. Ele estava de pé, sem saber como havia se levantado. Ele deu um passo em direção a ela, e depois outro. “Quarenta e nove mil, duzentos e setenta e cinco.”

Ela sabia imediatamente o que ele quis dizer. Ele sabia que ela saberia. Ela o conhecia como nenhuma outra pessoa viva. “Você está contando os dias?”

“Quarenta e nove mil, duzentos e setenta e cinco dias desde que eu te beijei pela última vez”, disse ele. “E eu pensei em você em todos eles. Você não precisa me lembrar da Tessa que eu amei. Você foi meu primeiro amor e vai ser o meu último. Eu nunca te esqueci. Eu nunca deixei de pensar em você.” Ele estava perto o suficiente agora para ver o coração dela pulsando em sua garganta. Para estender a mão e levantar um cacho de seu cabelo. “Nunca.”

Os olhos dela estavam meio fechados. Ela estendeu a mão e pegou a mão dele, onde ele acariciava seu cabelo. O sangue dele era um tempestade em seu corpo, tão forte que doía. Ela abaixou a mão dele até a altura do corpete do vestido. “O anúncio dizia que não tinha botões”, ela sussurrou. “Apenas ganchos na frente. Mais fácil para uma pessoa fechar.” Ela abaixou sua mão direita, pegou o outro pulso dele, e levantou. Agora as duas mãos deles estavam no corpete. “Ou para abrir”. Os dedos dela se curvaram sobre os deles enquanto, muito deliberadamente, ela abriu o primeiro gancho em seu vestido.

E o próximo. Ela moveu as mãos dele para baixo, seus dedos entrelaçados, abrindo os ganchos até que o vestido estava pendurado em cima do espartilho, dobrado em cada lado como uma pétala de flor. Ela estava respirando profundamente; ele não conseguia tirar os olhos de onde o pingente subia e descia com os arquejos dela. Ele não conseguia se mover nem um centímetro em direção a ela: ele queria, queria demais. Ele queria soltar o cabelo dela e enrolar em seus pulsos como cordas de seda. Ele queria os seios dela embaixo de suas mãos e as pernas dela em volta de sua cintura. Ele queria coisas que ele não sabia o nome e nem possuía experiência. Ele apenas sabia que se ele se movesse um centímetro mais perto da barreira de controle que ele havia erguido em torno de si, ela se estilhaçaria e ele não sabia o que aconteceria em seguida.

“Tessa”, disse ele. “Você tem certeza—?”

Seus cílios tremeram. Os olhos dela ainda estavam entreabertos, seus dentes fazendo meias-luas em seu lábio inferior. “Eu tinha certeza antes,” disse ela, “e tenho certeza agora”.

E ela prendeu suas mãos firmemente nas laterais de seu corpo, onde sua cintura curvava para cima, uma de cada lado de onde seus quadris se alargavam.

O controle dele se desfez, uma explosão silenciosa. Ele a puxou para si, com intenção de beijá-la ferozmente. Ele a ouviu fazer um barulho de surpresa e então seus lábios silenciaram os dela, e a boca dela se abriu ansiosamente embaixo da dele. As mãos dela estavam no cabelo dele, segurando com força; ela estava na ponta dos pés para beijá-lo. Ela mordeu o lábio inferior dele, beliscou seu queixo, e ele gemeu, introduzindo as mãos dentro do vestido dela, seus dedos traçando a parte de trás do corset, a pele dela queimando através da “camisa” que ele conseguia sentir através da renda. Ele estava tirando seus sapatos e as meias, o chão frio de encontro aos seus pés descalços.

Ela soltou um pequeno suspiro e se aproximou mais de seus braços. Ele tirou as mãos de dentro do vestido dela e pegou sua saia. Ela fez um som de surpresa e então ele estava tirando o vestido por cima da cabeça dela. Ela exclamou, rindo, quando o vestido saiu todo menos pela parte em que ainda estava preso nos pulsos, onde pequenos botões prendiam as abotoaduras. “Cuidado”, ela provocou, enquanto os dedos rápidos dele abriam os botões. Ele levantou o vestido e o jogou longe. “É uma antiguidade.”

“Tecnicamente, eu também sou.” disse ele, e ela riu de novo, olhando para ele com o rosto quente e aberto.

Ele tinha pensado em fazer amor com ela antes, claro que tinha. Ele havia pensado sobre sexo quando era um adolescente, porque é isso que adolescentes fazem, e quando ele havia se apaixonado por Tessa, ele havia pensado sobre sexo com ela. Pensamentos vagos de estar fazendo coisas, mas ele não tinha certeza do quê — uma imagem de braços e pernas claras, o toque imaginário da pele suave dela embaixo de suas mãos.

Mas ele não havia imaginado isso: que poderia ter riso, que poderia ser tão carinhoso e gentil quanto apaixonado. A realidade daquilo, dela, o deixava sem ar.

Ela se afastou por um momento e ele entrou em pânico. O que ele havia feito de errado? Ele havia a machucado, repelido? Mas não, seus dedos haviam ido para a crinolina em sua cintura, torcendo e puxando. Então ela levantou seus braços e os entrelaçou ao redor do pescoço dele. “Me levanta”, ela disse. “Me levanta, Jem.”

A voz dela era um suave ronronar. Ele pegou a cintura dela e levantou, tirando-a de sua anágua como se estivesse tirando uma cara orquídea de seu jarro. Quando ele a colocou no chão de volta, ela estava usando apenas o espartilho, roupa de baixo e meias. As pernas dela eram tão longas e lindas quanto ele havia sonhado e se lembrado.

Ele estendeu a mão para tocá-la, mas ela o interceptou. Ela ainda estava sorrindo, mas agora tinha algo travesso no riso. “Ah, não”, ela disse, gesticulando para ele, seu jeans e suéter. “Sua vez.”

TERCEIRA PARTE

Ele congelou por um momento, e, em pânico, Tessa se perguntou se havia pedido demais dele. Ele havia se desconectado de seu corpo por tanto tempo — uma mente numa carcaça de pele que era na maioria das vezes ignorada exceto quando precisava ser Marcada para algum poder novo. Talvez aquilo era muito pra ele.

Mas ele respirou fundo, e suas mãos se moveram para a barra de seu suéter. Ele o tirou por cima e surgiu com o cabelo amoravelmente bagunçado. Ele não estava usando uma camisa por baixo do moletom. Ele olhou para ela e mordeu o lábio.

Ela se aproximou dele, com os olhos e mãos ávidos. Ela olhou para ele antes de tocá-lo, e o viu acenando com a cabeça, Sim.

Ela engoliu em seco. Ela havia sido carregada como uma folha no vento na maré de suas memórias. Memórias de Jem Carstairs, o menino que havia sido seu noivo, com quem ela planejava casar. Com quem quase havia feito amor no chão da sala de música no Instituto de Londres. Ela havia visto seu corpo, naquela hora, nu até a cintura, sua pele branca com papel e estendida através de costelas proeminentes. O corpo de um garoto morrendo, embora ele tenha sempre sido belo aos olhos dela.

Agora a pele dele estava estendida em suas costelas e peito numa camada suave de músculos; seu tórax era largo, afinando na cintura. Ela o tocou tentativamente; ele estava quente e duro ao seu toque. Ela podia sentir as finas cicatrizes e runas antigas, claras em contraste com sua pele dourada.

Ele respirou por entre os dentes quando ela passou as mãos em seu peito e em seus braços, e na curva de seu bíceps, que se moldava ao toque dela. Ela se lembrou dele lutando com os outros Irmãos em Cadair Idris — e, é claro, ele havia lutado na Batalha da Cidadela, os Irmãos do Silêncio estavam sempre prontos para a batalha, mesmo que raramente o faziam.

De algum modo ela nunca havia pensado sobre o que significava para Jem o fato de que ele não estava mais morrendo.

Os dentes dele bateram um pouco; ela mordeu o lábio dele para mantê-lo quieto. Desejo a tomava e um pouco de medo também: Como isso poderia estar acontecendo? Acontecendo de verdade?
“Jem,” ela sussurou. “Você é tão…”

“Cheio de cicatrizes?” Ele colocou sua mão na bochecha, onde a marca preta da Irmandade ainda repousava em cima do arco de sua maçã o rosto. “Horrível?”

Ela balançou a cabeça. “Quantas vezes tenho que te dizer que você é belo?” Ela correu as mãos sobre a curva nua do ombro dele até o seu pescoço; ele tremeu. Você é belo, James Carstairs. “Você não viu todos te encarando na ponte? Você é muito mais bonito que eu”, ela murmurou, esticando as mãos ao redor dele para tocar suas costas; elas se enrijeceram diante da pressão dos dedos dela. “Mas se você é tolo o suficiente para me querer, então não questionarei minha sorte.”

Ele virou a cabeça para o lado e ela o viu engolir. “Durante toda a minha vida”, disse ele, “quando alguém dizia a palavra ‘bela’, era seu rosto que eu via. Você é minha própria definição de beleza, Tessa Gray.”

O coração dela pulou. Ela se ergueu na ponta dos pés — ela sempre foi uma garota alta, mas Jem era mais alto — e pôs a boca sobre a lateral da garganta dele, beijando suavemente. Os braços dele se enroscaram atrás dela, pressionando-a contra ele, seu corpo duro e quente, e ela sentiu outra pontada de desejo. Dessa vez ela o beliscou, mordendo a pele onde o ombro dele encontrava o pescoço.

Foi tudo um borrão. Jem fez um som grave na garganta e de repente eles estavam no chão, ela em cima dele, o corpo dele amortecendo sua queda. Ela olhou para ele em surpresa. “O que aconteceu?”
Ele parecia atordoado também. “Eu não consegui mais ficar em pé.”

O peito dela se aqueceu. Tinha sido há tanto tempo que ela havia esquecido a sensação de beijar alguém tão profundamente que seus joelhos cediam. Ele se apoiou nos cotovelos. “Tessa—”

“Não tem nada de errado”, ela disse, envolvendo o rosto dele em suas mãos. “Nada.. Entende?”

Ele estreitou os olhos. “Você me derrubou?”

Ela riu; o coração dela estava batendo forte, tonta com alegria e alívio e terror tudo de uma vez. Mas ela havia olhado para ele antes, visto o jeito que ele olhava para seu cabelo quando estava solto, tinha sentido seus dedos nele, acariciando tentativamente, quando ele a havia beijado na ponte. Ela se levantou e tirou as presilhas do cabelo, jogando-os do outro lado do quarto.

O cabelo dela caiu em camadas, se espalhando por seus ombros até a cintura. Ela se inclinou para frente, a ponto de seu cabelo encostar no rosto dele, e em seu peito nu.

“Você se importa?”, ela sussurrou.

“Como isso está progredindo…”, disse ele, contra a boca dela, “não me importo. Acho que prefiro estar reclinado.”

Ela riu e passou as mãos sobre o corpo dele. Ele se mexeu, se curvando em direção ao seu toque.

“Para uma antiguidade”, disse ela, “você teria um bom preço no Sotheby’s. Todas as suas partes estão funcionando muito bem.”
As pupilas dele dilataram e ele riu, a respiração quente dele esquentando o rosto dela. “Eu esqueci como é ser provocado, acho”, disse ele. “Ninguém provoca os Irmãos do Silêncio.”

Ela havia tirado vantagem da distração dele para tirar seus jeans. Havia tão pouca roupa entre os dois que estava distraindo-os. “Você não está mais na Irmandade”, disse ela, passando os dedos na barriga dele, nos cabelos finos abaixo de seu umbigo, no peito nu suave dele. “E eu ficaria muito decepcionada se você continuasse em silêncio.”

Ele estendeu a mão cegamente para ela e a puxou. As mãos dele se enterraram no cabelo dela.

E eles estavam se beijando de novo, os joelhos dela um de cada lado do quadril dele, as mãos de Tessa no peito dele. Ele passava as mãos pelo cabelo dela repetidamente, e cada vez ela podia sentir o corpo dele arquear em direção ao dela, os lábios dele pressionando os delas cada mais mais forte. Não eram beijos selvagens, não mais: agora eram deliberados, crescendo em intensidade e fervor cada vez que se afastavam e se aproximavam de novo.

Ele colocou a mão na renda do espartilho dela e o puxou. Ela se moveu para mostrá-lo que também estava preso na frente, mas ele já tinha alcançado a frente. “Minhas desculpas,” disse ele, “à antiguidade.”, e então do jeito mais não-Jem possível, rasgou o espartilho na frente e o jogou longe. Embaixo estava sua camisola, a qual ele puxou por cima da cabeça dela e jogou ao lado.
Ela respirou fundo. Ela estava nua na frente dele agora, como nunca havia estado.

QUARTA PARTE

Jem tinha a sensação de que, mais tarde, suas mãos iriam doer (ele nunca tinha rasgado um espartilho ao meio antes), mas, naquele momento, ele não sentia nada além de Tessa. Ela estava sentada montada em seus quadris, os olhos arregalados, os cabelos caindo sobre os ombros e seios nus. Ela parecia Vênus saindo das ondas, com apenas o pingente de jade para cobri-la, brilhando contra a pele dela.

“Eu acho,” disse ela, sua voz saiu alta e ofegante, “que eu preciso que você me beije agora.”

Ele estendeu a mão para puxá-la para baixo, agarrando os ombros esguios. Rolou-os de forma que ele ficasse em cima dela, equilibrado nos cotovelos, tomando cuidado com o seu peso. Mas ela não parecia se importar. Ela ajustou-se debaixo dele, curvando o corpo para se adaptar ao dele. A suavidade de seus seios pressionados contra o peito dele, e o côncavo de seus quadris era um apoio para segurá-lo, e os dedos dos pés descalços dela corriam pelas panturrilhas dele.

Ele fez um som baixo, carente e obscuro em sua garganta, um som que ele mal reconheceu como vindo de si mesmo. Um som que fez as pupilas de Tessa dilatarem, sua respiração vindo rapidamente. “Jem,” disse ela, “por favor, Jem,” e ela virou a cabeça para o lado, repousando sua bochecha em seu cabelo solto.

Ele se inclinou sobre ela. Eles já tinham feito isso juntos antes. Disso ele lembrava. Que ela gostava de ser beijada em uma linha abaixo de sua garganta, e que se ele seguisse a forma de sua clavícula com a boca, ela iria gritar e cavar as mãos em suas costas. E se ele se aterrorizou com o que veio em seguida — não saber o que fazer, ou como agradá-la — isso foi apagado na pressa da resposta dela: seus gritos suaves enquanto ele passava as mãos nas pernas dela e a beijava no peito e estômago.

“Meu Jem,” ela sussurrou enquanto ele a beijava. “James Carstairs. Ke Jian Ming.”

Ninguém o havia chamado pelo seu nome de nascimento há mais de meio século. Isso era tão íntimo quanto um toque.

Ele não sabia ao certo como o resto de suas roupas foram descartadas, só que, de alguma forma, eles estavam deitados sobre os restos destruídos de seu vestido de seda e saias. Tessa não era suave e flexível sob ele como ele tinha imaginado há muito tempo atrás, ela era responsível e exigente, levantando o rosto para ser beijada mais e mais, passando as mãos sobre ele, cada escova de seus dedos acendendo faíscas em terminações nervosas que ele temia estarem mortas há muito tempo.

Era muito melhor do que ele tinha imaginado. Ele estava cercado por ela, seu cheiro de sabonete de água de rosas e sua pele e sua confiança implícita. Ela não apenas confiava que ele não a machucaria; era mais que isso. Ela confiou que a falta de experiência dele não importaria, que nada importaria a não ser que fossem eles dois e eles sempre havima procurado fazer o outro feliz. Quando ele vacilou e disse, “Tessa, eu não sei como —” ela sussurrou contra sua boca e colocou as mãos para onde deveriam ir.

Uma espécie de repreensão, mas a mais gentil que ele já recebeu, e a melhor. Ele não havia bem imaginado isso, que as suas reações seriam espelhadas, que o prazer dela aumentaria o dele. Que quando ele deslizaria as mãos por suas pernas, ela as envolveria em torno de sua cintura por vontade própria. Que cada pensamento fugiria de sua cabeça, exceto pela sensação dela embaixo dele e, em seguida, ao seu redor enquanto ela o guiava para onde ele precisaria estar.

Ele ouviu-se gritar como se fosse a distância, enquanto ele se enterrava nela. “Tessa.” Ele agarrou nos ombros dela como se a agarrasse para os fragmentos de seu controle. “Tessa, oh Deus, Tessa, minha Tessa.” A coerência tinha o deixado completamente. Ele balbuciou alguma coisa assim, não mais em Inglês, ele não sabia o quê, e ele a sentiu apertar os braços em volta dele.

Ele estava respirando em suspiros quando se moveu, lutando pelos últimos fragmentos de seu controle. Seus olhos estavam fechados;luz brilhava por trás de suas pálpebras. Tanta luz. Ele lutou desesperadamente para se agarrar, não querendo que isso acabasse, ainda não. Ele ouviu a voz de Tessa sussurrando seu nome; eles estavam tão perto, mais perto do que nunca havia acreditado ser possível. As mãos dela deslizaram seu corpo abaixo para se agarrarem à sua cintura. Havia uma fina linha de concentração entre suas sobrancelhas; suas bochechas estavam escarlate brilhante, e quando ela tentou dizer seu nome outra vez, um suspiro irregular o engoliu. Uma de suas mãos voou para sua boca e ela mordeu os dedos enquanto seu corpo se apertava ao em torno dele.

Fora como álcool para o fogo. O ultimo remanescente de seu controle evaporou. Ele enterrou seu rosto contra o pescoço dela conforme as luzes por de trás de suas pálpebras se quebravam nas cores de um caleidoscópio. Ele havia levado a escuridão da Cidade do Silêncio consigo, mesmo ao deixar a irmandade. E agora ela havia aberto sua alma e deixado a luz entrar, e foi brilhante.

Ele nunca tinha imaginado isso. Ele nunca sequer havia imaginado imaginar isso

Quando voltou a si, ele descobriu que ainda estava segurando-a com força, a cabeça inclinada sobre o ombro dela. Ela estava respirando suavemente e regularmente, com uma mão no cabelo dele, acariciando, murmurando palavras de carinho.

Ele se afastou dela com relutância, rolando para se organizarem para que estivessem cara a cara. A maior parte da luz do dia havia desaparecido; eles olhavam um para o outro em uma penumbra que suavizou todos os cantos. Seu coração batia forte enquanto ele estendia a mão para passar seu polegar sobre o lábio inferior dela.

“Você está bem”, disse, com a voz rouca. “Era isso-” Ele parou, percebendo, para seu horror que o brilho nos olhos dela eram lágrimas. Uma desceu por sua bochecha, sem controle.

“Tessa?” Ele pôde ouvir o pânico selvagem em sua própria voz. Ela lhe deu um sorriso rápido, tremendo, mas esta era Tessa. Ela nunca mostraria desapontamento. E se tivesse sido terrível para ela? Ele tinha pensado que fora incrível, perfeito, ele pensou que seu corpo quebraria em pedaços por sentir tanta felicidade ao mesmo tempo. E ele pensou que ela havia respondido, mas o que ele sabia? Ele amaldiçoou sua própria inexperiência, sua arrogância, seu orgulho. O que o fez pensar que podia-

Ela se sentou, inclinando-se sobre a mesa do café, suas mãos faziam algo que ele não podia ver. Seu corpo nu foi delineado pelo crepúsculo, insuportavelmente bonito. Ele olhou para ela com seu coração gaguejando. A qualquer momento agora ela iria se levantar e colocar suas roupas, diria a ele que o amava, amara-o sempre mas não desta forma. Que eles não eram uma paixão, e sim uma amizade.

Ele disse a si mesmo que poderia suportar isso, antes de ter ido à ponte se confessar. Ele próprio disse que poderia ter sua amizade e nada mais, que era melhor do que não tê-la por perto. Mas agora que ele sabia, agora que eles haviam dividido suspiros e seus corpos e suas almas, ele não poderia voltar atrás. Para ser somente seu amigo, nunca tocá-la novamente, iria rasgá-lo em mim pedaços. Seria mais agonizante do que o fogo celestial jamais fora.

Ela se voltou para ele, segurando algo em suas mãos.

“Jem?” disse ela. “Jem, você está a milhares de quilômetros de distância!” Ela tinha se enrolado em uma colcha cinza dobrada do sofá; ela se sentou ao lado dele; as lágrimas tinham desaparecido e ela estava aconchegada e sorrindo. “Honestamente, se o que nós acabamos de fazer não chamar a sua atenção, eu não sei o que faria.”

Ele olhou para ela. “Mas você estava chorando,” ele disse, finalmente.

Ela olhou para ele intrigada. “Porque eu estou feliz. Porque aquilo foi perfeito.”

Ele soltou o fôlego em uma onda de alívio. “Então isso foi — aquilo foi bom? Eu poderia melhoras, poderíamos praticar —”

Ele percebeu o que acabara de dizer, e fechou a boca.

Um sorriso malicioso se espalhou pelo rosto dela. “Oh, nós vamos praticar,” disse ela. “Assim que estiver pronto.”

“Eu não tenho outros compromissos para esta noite”, disse ele gravemente.

Ela corou. “Seu corpo pode precisar de tempo para — para se recuperar.”

“Não”, ele disse, e desta vez ele se permitiu um pequeno traço de presunção. “Não, eu não acho.”

Ela corou ainda mais. Ele adorava a fazer corar; sempre amou. “Bem, eu preciso de cinco minutos, pelo menos!” disse ela. “E eu preciso que você veja isso. Por favor?”

Ela estendeu um pedaço de papel para ele. Sua expressão era surpreendentemente sombria; isso mandou a presunção dele embora, e o seu desejo de provocá-la também. Não ousando falar, ele pegou o papel dela e desdobrou.

Ela limpou a garganta. “Eu posso ter brincado mais cedo,” disse ela, “quando eu disse que consegui esse lugar sob o nome de Bedelia Codfish.”

Ele olhou para a escritura do apartamento em Queen’s Gate. Ele foi feito em nome de Tessa, ou algo parecido. Não Tessa Gray, no entanto, nem mesmo Tessa Herondale. Ela foi feita em nome de Tessa Herondale Carstairs.

“Quando falei com Magnus em Idris, após a Guerra Mortal”, disse ela, “ele me disse que tinha sonhado que você estava curado. Você sabe como Magnus é. Algumas vezes os sonhos dele são reais. Então eu me permiti ter esperanças pela primeira vez em muito tempo. Eu sabia que isso era improvável, se não impossível. Eu sabia que isso poderia demorar muitos anos. Mas você me pediu para me casar com você uma vez, há muito tempo. E, de certa forma, essa é a nossa noite de núpcias. Uma consumação com muito tempo de atraso.” Ela sorriu para ele, mordendo o lábio, claramente nervosa.

Os dedos dela brincavam com o cobertor que ela envolveu em volta dela. “Talvez eu não deveria ter pego emprestado o seu nome, mas eu sempre senti no meu sangue que nós éramos uma família.”

“Tessa Herondale Carstairs,” ele sussurrou. “Você jamais deve se preocupar em pegar o meu nome emprestado quando você sabe que poderia pegá-lo de vez.”

Ele largou o pedaço de papel da mão dele e a alcançou. Ela se inclinou em seu colo e ele a segurou forte, contra a sensação de engasgamento em sua própria garganta.

Ela nunca tinha desistido dele. Ele lembrou de uma vez dizer a Will quando ele lhe havia dado fé, quando Will não tinha mais nenhuma. Ele sempre esperou o melhor para Will, mesmo quando Will não esperava o melhor para si mesmo. E Tessa fez isso por ele. Ele tinha há muito tempo perdido a esperança de uma cura, mas ela — ela sempre teve.

“Mizpah, Tessa,” ele sussurrou. “Na verdade, com certeza Deus estava olhando por nós enquanto nós estávamos separados um do outro. E ele olhou por nós quando ambos fomos separados de Will e nos trouxe de volta um para o outro.”

Eles dormiram agarrados sobre os restos do vestido de Tessa, e mais tarde se mudaram para o sofá. Estava bem escuro, e eles beberam chá gelado e fizeram amor de novo, dessa vez mais gentilmente e devagar até Tessa se segurar nos ombros de Jem implorar para ele ir mais rápido. “Dolcissimo, não appasionato,” disse ele com um sorriso de pura diversão atormentada.

“Ah, é?” Ela se abaixou e fez algo com a mão que ele claramente não estava preparado. Todo o seu corpo ficou tenso. Ela riu enquanto as mãos dele se enterravam de repente na cintura dela, os dedos cavando. Seus cabelos escuros pendurados em seus olhos; sua pele brilhava com o suor. Mais cedo, ela havia fechado os seus próprios olhos: desta vez ela o viu, a mudança em sua expressão enquanto seu controle quebrava, a forma de sua boca enquanto ele suspirava seu nome.

“Tessa —”

E dessa vez ela esqueceu de morder a mão para abafar os sons que ela fazia. Oh, bem. Danem-se os vizinhos. Ela havia ficado em silêncio por quase um século.

“Talvez isso tenha sido mais presto do que eu esperava,” ele disse com uma risada, quando eles estavam deitados juntos depois, encravados entre as almofadas. “Mas então, você me enganou. Você é mais experiente do que eu.”

“Eu gosto disso.” Tessa beijou os dedos dele. “Eu vou ter uma grande dose de divertimento introduzindo-lhe a tudo. Mal posso esperar para você ouvir rock and roll, Jem Carstairs. E eu quero vê-lo usar o iPhone. E um computador. E andar de metrô. Você já esteve em um avião? Eu quero estar em um avião com você.”

Jem ainda estava rindo. O cabelo dele estava uma grande bagunça, e os seus olhos estavam escuros e brilhando à luz do lampião. Ele olhou como o garoto que havia sido, há tantos anos atrás, mas diferente também: esse era um Jem que Tessa só tinha começado a conhecer. Um jovem, saudável Jem, não um garoto morrendo ou um Irmão do Silêncio. Um Jem que poderia amá-la com toda a força que ela poderia amá-lo de volta.

“Vamos pegar um avião”, disse ele. “Talvez para Los Angeles.”

Ela sorriu. Ela sabia por que tinham que estar lá.

“Teremos tempo de fazer tudo,” disse ele, traçando um de seus dedos para a lateral do rosto dela. “Nós temos a eternidade.”

Não a eternidade, Tessa pensou. Eles tinham um longo, longo tempo. Uma vida inteira. A vida inteira dele. E ela iria perdê-lo algum dia, como ela perdeu Will, e o coração dela quebraria, como foi quebrado antes. E ela iria se recompor e seguir em frente, porque a memoria de ter tido Jem seria melhor do que nunca ter tido ele.

Ela era sábia o suficiente para saber disso agora.

“O que você disse antes,” ela perguntou. “Que Jace Herondale ama Clarissa Fairchild mais do que qualquer pessoa que você já conheceu, exceto alguém — você nunca terminou a sentença. Quem era?”

“Eu ia dizer você e eu e Will,” disse ele. “Mas — essa é uma coisa estranha de se dizer, não é?”

“Nem um pouco.” Ela se aninhou ao seu lado. “Exatamente. Sempre e sempre, exatamente.”

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O fim e o começo.

[Traduzido por Equipe IdrisBR. Dê os créditos. Não reproduza sem autorização.]

FONTE