Cena excluída de Princesa Mecânica

“As pessoas sempre me perguntam sobre cenas que são cortadas dos livros, e elas podem ser difíceis de encontrar, porque na maioria das vezes, não guardamos as cenas que foram cortadas, como se faz em filmes, mas temos apenas as cenas reescritas.

Eu decidi postar uma cena reescrita de Princesa Mecânica, e ela contém spoilers. É a cena que começa mais ou menos na página 468, com Will no quarto de Henry. Se você colocar uma cena ao lado da outra, verá diferenças – a hora em que Charlotte fica sabendo de certa informação, onde Will está onde certa coisa acontece, as pessoas que estão presentes, e a atitude de Jem e Will um com o outro.”
– Cassandra Clare

Cena Excluída de Princesa Mecânica

“A Tessa acordou!”, anunciou Charlotte, feliz, abrindo a porta do quarto dela e de Henry, como um beija-flor excitado.

Will, que estava sentado na cadeira ao lado da cama de Henry, levantou imediatamente, o livro que estava lendo deslizando de seu colo. “Tess – a Tessa acordou? – gaguejou ele. “E ela está –“

“Sim, falando, “e o Irmão Enoch disse que ela está bastante bem, apesar de exausta.”

“Eu desejo vê-la”, disse Will, e começou a se mover em direção à porta, mas Charlotte ergueu uma das mãos.

“Dê um momento a ela, Will; a Sophie está com ela, ajudando-a a se vestir.”

Will sabia o que “ajudando-a a se vestir” significava: se ele as interrompesse agora, a Tessa estaria no banho. Uma onda de desejo, misturada com uma pontada de culpa, o acertou como um trem. Ele se sentou rapidamente, procurando o livro no chão.

Charlotte olhou na direção dele, com um sorriso se curvando no canto da boca. Claramente, ele estava fornecendo a ela um pouco de divertimento. “Você esteve lendo poesia a Henry?”, perguntou ela.

“Sim, algo terrível, tudo cheio de poesia”, disse Henry, rabugento. Ele estava completamente vestido, apoiado em seus travesseiros na cama com uma caneta em uma das mãos e papeis espelhados no acolchoado ao redor dele. Will não o culpava por sua rabugice. Tessa esteve adormecida e Henry, de cama, por três dias, quando os Irmãos do Silêncio reuniram os membros do Instituto ao redor da cama de Henry para contar a ele que embora ele fosse viver, ele não caminharia de novo. Mesmo com toda a magia que os Irmãos tinham a seu dispor, não havia mais o que pudessem fazer.

Henry encarou as novidades com a mesma força de espírito de sempre, e a decisão de construir uma cadeira para si mesmo, como uma cadeira para inválidos, só que melhor, com rodas auto-propulsoras e todo o tipo de apetrechos: ele estava determinado que ela seria capaz de subir e descer escadas, para que ele ainda pudesse chegar às suas invenções na cripta. Ele tinha estado rabiscando desenhos para a cadeira durante toda a hora em que Will esteve lendo Idylls of the King para ele, mas poesia nunca havia sido uma área que interessasse Henry.

“Bem, você está dispensado de seus deveres, Will, e Henry, você está livre de futuros poemas”, disse Charlotte. “Se você quiser, querido, posso ajudá-lo a juntar suas anotações –“

Houve uma batida na porta, e Charlotte, franzindo o cenho, foi ver quem era. Um momento depois, ela retornou, um olhar sombrio no rosto dela. Ela lançou um olhar a Will, e no momento seguinte, ele descobriu o motivo: dois Irmãos do Silêncio estavam parados em frente a ela, e um deles era Jem.

Will sentiu seu peito apertar. Desde a batalha em Cader Idris, ele e Jem não haviam se falado.

Will tinha tido certeza que todos eles iriam morrer, juntos, lá, embaixo da montanha, até que Tessa usou o brilho da glória do Anjo e abateu Mortmain como um raio quando cai em uma árvore. Foi uma das coisas mais maravilhosas que Will já tinha visto, mas seu assombro foi rapidamente substituído por terror quando Tessa desmaiou depois da Mudança, sangrando e inconsciente, não importa o quanto eles tentassem acordá-la. Magnus, perto da exaustão, quase não conseguiu abrir um Portal para voltarem ao Instituto com a ajuda de Henry, e Will só se lembrava de borrões depois disso, uma névoa de exaustão e sangue e medo, mais Irmãos do Silêncio sendo chamados para assistir os feridos, e as informações vindas do Conselho de todos que haviam sido mortos naquele dia, antes dos autômatos que os atacaram terem parado de funcionar com a morte de Mortmain. E Tessa – que não falava, não acordava, quase não respirava. Tessa sendo carregada para o quarto dela e ele, que não podia ir com ela. Como não era nem irmão nem marido, ele podia apenas ficar parado e olhar para ela, abrindo e fechando as mãos, que estavam manchadas de sangue. Ele nunca havia se sentido tão desamparado.

E quando ele foi encontrar Jem, para dividir o medo com a única pessoa no mundo que amava Tessa tanto quanto ele – Jem havia ido embora, de volta à Cidade do Silêncio, sob ordens dos Irmãos. Tinha ido embora sem ao menos se despedir.

Embora Cecily tenha tentado acalmá-lo, Will estava com raiva – com raiva de Jem, e até mesmo, com o passar dos dias, com raiva de Charlotte, por permitir que Jem se tornasse um Irmão do Silêncio, embora ele soubesse que isso era injusto: havia sido escolha de Jem, e o único jeito de mantê-lo vivo. A preocupação insana que sentia por Tessa não ajudou em nada sua raiva: embora seus ferimentos físicos fossem pequenos, o choque no sistema dela por causa do que ela fez havia sido muito grande, bem como a dor que ela sentiu. Ele se sentou ao lado dela, indo e voltando, por dias, segurando a mão dela, implorando que ela acordasse e o visse, até que Charlotte teve que ergué-lo de onde ele havia pego no sono, com o corpo meio esparramado na cama dela.

Will encarou Jem agora, com força o suficiente para abrir um buraco na cabeça dele, mas embora o capuz de Jem estivesse abaixado, expondo seu rosto, ele desviava o olhar de Will, de maneira determinada. O cabelo dele havia começado a retornar a sua cor preta original: o preto estava misturado com o prata, mecha por mecha, e os cílios dele estavam pretos novamente, também, e roçando contra as runas na bochecha dele quando ele abaixava o olhar.

Eram runas que apenas os Irmãos do Silêncio tinham: pareciam, para Will, com ferimentos, como cortes no rosto de Jem. Ele se sentiu enjoado por dentro.

Charlotte, disse o Irmão Enoch, e estendeu a mão: havia uma carta, selada com o selo do Conselho. Eu trouxe uma mensagem para você.

Charlotte o olhou com espanto. “Os Irmãos do Silêncio não entregam cartas.”

Essa carta é de suma importância. É imprescindível que você a leia agora.

Lentamente, Charlotte pegou a carta. Ela puxou a aba, franziu o cenho e atravessou o quarto para pegar o abridor de cartas em sua escrivaninha. Will aproveitou a oportunidade para encarar Jem com ainda mais força. Não adiantou nada. Jem não devolve o olhar de Will; seu rosto estava sem expressão; não havia nada lá para encontrar. Will se sentiu quase nauseado – era como ter sido um navio ancorado por anos e, de repente, ser liberto para flutuar nas ondas, sem a menor ideia de qual direção tomar. E lá estava Jem, sua âncora, sem olhar na direção dele ou encontrar seu olhar.
O som do papel sendo rasgado se fez ouvir, e todos eles assistiram à Charlotte abrir a carta e lê-la, a cor se esvaindo de seu rosto. Ela ergueu os olhos e encarou o Irmão Enoch. “Isso é algum tipo de gracejo?”
Não há gracejo nenhum, lhe garanto. Você tem uma resposta?

“Lottie”, disse Henry, olhando para sua esposa, até seus cabelos ruivos radiando ansiedade e amor. “Lottie, o que é, o que há de errado?”

Ela olhou na direção dele, e depois, tornou a olhar o Irmão Enoch. “Não”, disse ela. “Eu não tenho uma resposta. Não ainda.”

O Conselho não deseja esperar.

“Bom”, disse Charlotte, e sua voz era firme. “Eles precisarão. Diga a eles que enviarei uma resposta até o fim do dia.”

Depois de uma pausa, o Irmão Enoch assentiu com a cabeça, e se virou para deixar o quarto. Jem se virou para seguí-lo.

E Will quebrou. Ele deu uns passos para frente, e segurou a manga de Jem. O material grosso do manto era escorregadio sob seus dedos. “Isso é tudo?”, disse ele, em voz baixa, urgente. “Você volta para cá, e você não fala comigo – ou visita Tessa? Você ao menos terminou seu noivado, James Carstairs?”

Jem congelou no meio do que fazia. O Irmão Enoch se virou. Ele não parecia satisfeito, mesmo com a falta de expressão que os Irmãos tinham. Um Irmão do Silêncio não pode se casar ou estabelecer noivados, ele disse, e Will conseguia ver, pelos rostos daqueles que os cercavam, que ele e Jem podiam ouvir as palavras, mas ninguém mais podia. Ele não possui nem esposa nem parabatai agora.

A mão de Will ainda segurava a manga de Jem. “Você quer que eu conte a ela, então?” perguntou Will. Charlotte estava olhando para ele, balançando a cabeça, Will, não faça isso. Ele sabia que seu ódio era injusto, injustificável – o noivado de Jem e Tessa estava acabado, ele não deveria estar feliz? – mas ele não estava feliz. O luto e o ódio jorravam como água das rachaduras de seu coração partido. Jem, que nunca havia machucado ninguém, magoando ele, magoando Tessa – e se tudo que havia acontecido entre ela e Will houvesse acontecido somente por ela ter pensado que Jem estava morto, só por causa do desespero do luto e da necessidade humana de procurar conforto? E se ela amasse Jem e ainda esperasse por ele, de qualquer modo, sabendo que ele estava vivo mas longe dela, sem ouvir dele uma palavra que pudesse providenciar um final a esse capítulo da vida dela? E ainda assim, não havia futuro para ele sem Tessa. “James Carstais, você quer que eu conte a Tessa que você cansou dela, uma vez que você não vai fazer isso?”

“Que eu cansei dela?” Jem puxou a manga para longe de Will, e seus olhos estavam abertos e escuros e magoados, os olhos do Jem-criança, os olhos escuro que Jem havia conhecido enquanto crescia. “Eu vim até aqui porque Enoch me disse que ela havia acordado”, disse ele, e havia uma raiva em sua voz que Will praticamente nunca havia ouvido antes. “Eu pedi permissão para falar com ela uma última vez. Você sabe o que eu sinto. Eu nunca a superarei. Nem em cem anos. Nem em mil.” Ele olhou de Will para o Irmão Enoch, e de novo para Will. “E, no entanto, preciso. Não tenho escolha. Não soa como você, William, não sentir compaixão por isso.”

Will engoliu em seco. Tudo no quarto parecia ter se resumido a isso, havia apenas ele e Jem. “Eu pensei que, talvez – ser um Irmão do Silêncio – tivesse tirado de você sua capacidade de sentir”, ele disse, e então irrompeu “Eu não posso suportar isso, um James Carstairs que não é capaz de sentir. Não apenas por Tessa, mas por mim. Se ela o ama, se ela desejar passar o resto da vida dela sofrendo por sua partida, eu posso sobreviver a isso, mas não à morte de seu coração, ou do dela.”

Jem olhou para ele, e nas profundezas de seus olhos escuros Will conseguiu ver, por uns segundos, o Jem que ele conhecia. “Wo men shi jie bai xiong di,”, disse Jem. “Você saberia se meu coração tivesse morrido, e eu saberia o mesmo de você. Minha partida, como você diz, embora eu ainda permaneça no mundo, é como se eu pegasse um navio para alguma ilha desconhecida, um lugar ao qual você não pode me seguir. Mas saiba”, acrescentou ele, em uma voz que somente Will poderia ouvir, “Eu farei o que puder para garantir que eu possa ver você novamente, e a Tessa. Porque você é uma metade de meu coração, e ela é a outra. Enquanto eu tiver um de vocês para ser minha estrela-guia, meu coração não morrerá, e eu permanecerei sendo James Carstairs.”

“Will”, disse Charlotte. Ela soou preocupada. “Will e J – Irmão Zachariah, isso é bastante irregular. Irmão Enoch, eu peço perdão –“

“Eu pedi permissão para falar com Will, também, antes de vir”, disse Jem. “Me foi dito que eu poderia, desde que eu não falasse com ele ou respondesse enquanto o Irmão Enoch estava tratando dos assuntos do Conselho.”

Will o encarou, e depois desviou o olhar ao Irmão Enoch, percebendo, com uma pontada de náusea em seu estômago, que ele podia ter acabado de perder a única chance de falar em particular com Jem – para sempre. O rosto de Enoch estava sem expressão, não demonstrando nenhuma emoção.

“Isso não é justo!”, disse Will. “Eu me dirigi a você primeiro –“

Se acalme, pequeno Caçador de Sombras, disse o Irmão Enoch. Os laços entre parabatai são compreendidos pela Irmandade. Afinal, nós mesmos que criamos esses laços entre vocês. Você possui permissão para falar com ele, uma última vez, antes de ele ir.

[Traduzido por Equipe IdrisBR. Dê os créditos. Não reproduza sem autorização.]