Cassie respondeu uma ask em seu tumblr onde ela fala sobre o suposto boicote que os fãs da série de tv “Shadowhunters” estão ameaçando fazer a trilogia “The Eldest Curses”. Confira:

havisha1212: Oi, eu só queria dizer que eu vi muitos discursos online. [Tem aqueles que] estão tentando boicotar “Red Scrolls of the Magic” porque aparentemente eles sabem que sua intenção com o livro é a de ganhar dinheiro, mesmo quando te ofereceram mais para escrever sobre Clace. Eu entendo que você escreve o que quer escrever. NÓS AMAMOS VOCÊ e nós apreciamos você.

Eu realmente não tenho certeza do que dizer sobre isso. “Red Scrolls of Magic” não tem nada a ver com a série de tv, e eu não tenho nada a ver com a série ser cancelada.

Eu aprecio o amor, de verdade. É claro que eu fico triste de ouvir sobre um boicote em “The Eldest Curses”, já como é um livro sobre um casal gay inter-racial e um casal secundário de lésbicas que também é inter-racial. Uma vingança mirando um livro como esse, não vai ser visto pelo mundo de fora como um ato de apoio para uma série de tv. Vai ser visto exatamente como eles esperam – uma falta de interesse em livros sobre personagens LGBT+.

Eu acho que tem algumas coisas para falar aqui: uma é a realista situação sobre publicar livros adolescentes para LGBT+ e outra é sobre mulheres escrevendo. Nos termos do primeiro, é bem estranho sugerirem que eu escrevi esses livros por dinheiro quando eu, como você disse, recebi menos para escrever eles. Me pagaram um terço do que me pagaram por “Os Artifícios das Trevas”, mesmo que eles tivessem a mesma quantidade de livros. Eu recebi menos do que eu recebi pela minha série adulta “Sword Catcher” que envolve um novo mundo e personagens que ninguém tem familiaridade – uma marca completamente desconhecida. Muitas das minhas editoras internacionais ainda não publicam “The Eldest Curses”. Uma comprou e agora cancelou o acordo, mesmo que eles já tenham comprado outros livros de mim desde então. Tem mil coisas que eu poderia ter escrito ou feito que me daria mais dinheiro. Essa é a dura realidade da “vadia interesseira” que os boicotadores estão discutindo.

Alguém em Hollywood me disse uma vez que Alec sendo gay era “um ataque contra a simpatia do personagem”. Até agora ao publicar “The Eldest Curses” eu experimentei um “ataque contra sua comercialização”. Como vocês sabem, foi adiado: isso porque minha editora queria “Queen of Air and Darkness” saindo antes e causando um recorde de vendas – eles estão com medo que ninguém compre “Red Scrolls” por causa do conteúdo LGBT+.

Eu estou em uma boa posição: eu sou uma autora de best sellers e se esses livros não venderem bem, minha carreira pode aguentar o golpe. É em partes o porquê eu estou escrevendo eles agora, quando eu finalmente posso: eu acho que é importante ter certeza que livros assim estão na frente e no centro em livrarias, como é esperado de best-sellers, mas se esses livros não venderem, eu vou sobreviver. Outros autores que estão escrevendo livros LGBT+ não teriam tanta sorte, e a mensagem de boicotar um “grande” livro com um casal principal gay não é “nós não gostamos dessa autora” (porque meus outros livros estão vendendo muito bem) – é um “nós não gostamos desse assunto”. (É também uma estranha punição para Wes Chu, meu co-escritor, muitas vezes esquecido nesses debates – um homem de cor, escrevendo sobre outro homem de cor.)

É claro que eu não estou dizendo que alguém que não quer ler esses livros devia comprar ele. Nós devemos consumir o entretenimento que vai nos fazer bem; é para isso que existem. Mas a ideia de punir autoras mulheres por suas “falhas morais” é bem velho e bem triste. Sempre foi aceito que homens escrevam por dinheiro, ou por atenção; “ela só quer atenção” é uma das piores coisas que você pode dizer sobre uma mulher, mas é algo inofensivo quando dito sobre um homem. Igualmente, várias vezes me dizem online que eu não mereço ser paga pelo que eu escrevo ou que meu trabalho criativo devia ser tirado de mim e dado para homens. Sempre foi esperado, desde a era Vitoriana que escrever sobre pessoas complexas e histórias complexas fosse um trabalho masculino, e mulheres deviam escrever apenas contos moralísticos onde os bons são recompensados e os maus são punidos. Quando um personagem bom em um livro de homem faz algo errado, ele é parabenizado por sua complexidade; pra mim dizem o quão moralmente terrível eu sou, já que geralmente não se supõe que autoras mulheres tenham distancia emocional de seus personagens, e que com os homens, é um dom.

A raiz de tirar de uma mulher a habilidade de prosperar por seu trabalho volta séculos atrás na ideia de que é ruim para mulheres terem uma propriedade intelectual. Uma das minhas escritoras favoritas, Colette, morreu na pobreza porque seu marido tinha os direitos dos livros best-sellers dela. Existe um profundo desconforto na ideia de uma mulher sendo paga aquilo que ela merece. Escritores trabalham no entretenimento e eles não trabalham de graça, assim como cantores ou atores ou showrunners de séries. Eu sou a única provedora de sustento da minha família e dou apoio a meus pais e outros com a renda que eu obtenho trabalhando na propriedade intelectual que eu criei. Um homem seria parabenizado pelo seu sucesso. Eu sou chamada de vadia interesseira.

Uma das razões pelas quais eu quis publicar sozinha “Ghosts of the Shadow Market” foi porque eu queria escrever um conto sobre uma lésbica de gênero não-binário e eu queria que tivesse a mesma atenção que as outras histórias de jeitos levemente invisíveis que às vezes os leitores não notam – o mesmo tempo dado para escolher a capa, a mesma escolha de um bom leitor pro audiobook, o mesmo tempo sendo editado, a mesma propaganda. Quando “Every Exquisite Thing” saiu, nós nos sentamos torcendo nossas mãos e esperando que pelo menos vendesse metade do que os outros: e vendeu tão bem quanto eles, e nós ficamos animados. Nós podemos nos segurar nesses números. Nós podemos provar pontos importantes no futuro do mundo de publicações sobre a visibilidade de personagens não-binários LGBT+. Vendas importam. “The Red Scrolls of Magic” é um livro, e a expectativa de venda é maior para livros do que para contos, então eu sei que vou estar no mesmo estado de medo e esperança quando sair.

Mas o fato de que “Every Exquisite Thing” saiu bem significa algo mais. Eu acreditei que tinha uma audiência para isso, e todas as pessoas que compraram, provaram que eu estava certa. O jorro de amor durante o concurso por uma copia prévia de “Red Scrolls of Magic” foi maravilhoso, e eu passei pelas tags #malec e #malecparty (muito obrigada, gente! Os vencedores vão ser notificados!) com lágrimas nos olhos, tocada pelas histórias das pessoas se abrindo sobre a sexualidade, e tendo seus olhos abertos para novas ideias e mais do que isso, por todo o amor. Antes de ter atenção ou dinheiro, eu tenho a felicidade da criação. Um dos sentimentos mais incríveis quando escrevemos é que as pessoas gostem, e ter pessoas reais tão investidas em suas criações. Eu criei Magnus e Alec, transformando eles em personagens, e eu amo cada pedaço deles e ontem eu pude ver outras pessoas amando eles também. Eu fiquei impressionada e grata pelo apoio de cada leitor que abraçou o mundo diverso que eu tentei criar, e a crescente diversidade que eu tento e continuo escrevendo e sou permitida a escrever por ter mais liberdade no que eu escrevo do que quando eu tinha acabado de começar e as editoras não queriam me publicar porque eu não queria tirar Alec dos meus livros. Eu espero ajudar a mudar atitudes e criar, junto com muitos outros escritores e leitores que acreditam que a media diversificada faz a diferença, um mundo onde um casal principal LGBT+ vai ser julgado puramente por seus méritos literários. Nós ainda não chegamos lá! Eu queria que tivéssemos. Mas o crescente chamado e apoio por literatura diversa me faz acreditar que estamos chegando lá. Eu confio em meus leitores. Eu tenho que acreditar que qualquer um, chamando por um boicote em “The Red Scrolls of Magic” está em uma minoria odiosa que perdeu a visão de como suas ações podem ser vistas pelo mundo, e o efeito que suas ações teriam no mundo. Eu preciso acreditar que existem muito mais pessoas que estão abertas a amar e apoiar histórias diversas.

Dinheiro e atenção são bons. Mas, no final, eu escrevo porque eu acredito que palavras tem o poder de mudar as pessoas, e mudar o mundo. Por fim, eu tenho que fazer o que eu acho que é certo, e acreditar que outras pessoas vão fazer também. Meus leitores não me decepcionaram ainda.

[ATUALIZAÇÃO #1]

[Eu decidi remover a parte sobre a série de TV “Shadowhunters” da ask original. Infelizmente quem perguntou foi forçado a deletar o tumblr por causa das respostas a esse post, então eu não posso pedir uma clarificação. Eu espero que esteja bem.

A resposta para essa pergunta e todas as outras parecidas – essa não foi a única pergunta sobre isso – sobre pessoas decidindo boicotar Red Scrolls. As ligações delas não são importantes e eu estou tendo a sensação de que isso pode ter sido uma tentativa de me levar para uma briga que eu não estou interessada em ter e que eu deliberadamente evitei conhecer ou dizer qualquer coisa sobre desde o cancelamento da série. Eu estou interessada em falar sobre como autoras mulheres são tratadas, online e off-line. Eu estou irritada – parcialmente comigo mesma – por me deixar ser levada nessa guerra de extermino mutuo entre fãs de coisas diferentes. Não é meu lugar dar uma opinião nessas coisas ou na guerra em si. Eu também removi a palavra “stan” da ask original, já como eu imagino que foi um insulto. Fãs são fãs, gostando do que gostarem.]

[FIM DA ATUALIZAÇÃO #1]

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