Cassandra Clare fala sobre arco de Simon em “Os Instrumentos Mortais”

Cassandra Clare, Livros, Os Instrumentos Mortais

Alguém mandou uma ask no tumblr de Cassie reclamando do arco de Simon – de como ele deixou de ser uma minoria para se tornar parte do grupo privilegiado. Cassie deu uma longa resposta sobre todo o assunto, a qual já traduzimos completamente. Confiram:

Preconceito na literatura de fantasia e o uso da metáfora

reallybigshadowhunterstvfan disse:
O que você pode dizer sobre fazer Simon um caçador de sombras, Sra. Clare? Me pareceu estranho que depois de toda uma série de batalhas pela igualdade entre espécies/raças, o ser do submundo teve de se tornar um caçador de sombras. Não só ele basicamente deixou de ser uma minoria, ele também se tornou parte de uma comunidade privilegiada, e isso simplesmente não caiu bem comigo.

Apenas para o registro – eu não sou a Sra. Clare; Não há nenhum Sr. Clare. Eu sou casada, mas meu pseudônimo não é propriedade do meu marido. 🙂

Eu acho que esta é uma pergunta muito interessante que traz uma tonelada de questões, mas há alguns aspectos que eu gostaria de esclarecer – por exemplo, eu fico confusa em chamar Simon de “o ser do submundo”. Ele é mais um ser do submundo do que Magnus? Coisas como essa, na verdade, são realmente importantes quando se discutem histórias – se ele fosse o único ser do submundo na história, esse seria um tipo de discussão, mas ele não é, e, portanto, sua história não fala para a experiência de todos os seres do submundo ou mesmo uma pequena fração.

Sinto muito que você tenha se surpreendido negativamente pela história de Simon em TMI. Simon nunca quis ser um vampiro – ele sempre odiou, e ao contrário de Raphael e Lily, ele nunca se juntou à comunidade de vampiros, mas em vez disso passou todo o seu tempo com caçadores de sombras. Ser um Diurno já o tinha mudado de ser qualquer tipo de ser do submundo regular, assim como carregar a marca de Cain: ambos o fizeram ainda menos “o ser do submundo” e mais um tipo de anomalia. Também o separava dos outros seres do submundo, que o tratavam com desconfiança. Na minha experiência, poucos leitores esperavam que Simon continuasse sendo um vampiro, uma vez que era algo que ele nunca quis ou se acostumou, e que não era o seu sonho. Mais sobre isso daqui a pouco.

Quanto à pergunta, para mim a sugestão de que caçadores das sombras são “os privilegiados” e seres do submundo são como um bloco “os marginalizados” – em vez de ser uma metáfora complicada em que eles às vezes, mas nem sempre, lutam por pessoas que tiveram seus direitos reduzidos – simplifica excessivamente a situação. É um argumento que parece ignorar o fato de que, na verdade, os seres humanos existem ao longo de eixos de privilégio e marginalização: que as pessoas podem ser privilegiadas de uma forma e marginalizadas em outra e que quando Simon se torna primeiro um ser do submundo e depois um mundano e depois caçador de sombras , ele não está se movendo claramente da marginalização para o privilégio, mas sim trocando alguns tipos de privilégio por outros (ele permanece branco como um ser do submundo, e é um Diurno), e trocando alguns tipos de marginalização por outros (a marginalização de ser um ser do submundo para a marginalização de ser um caçador de sombras nascido como um mundano e um judeu em um mundo onde caçadores de sombras são destinados a ter uma religião).

Pelo o argumento de desmentir espectros de privilégios e marginalização, ele também sugere que no mundo das Crônicas dos Caçadores de Sombras é um mundo em que não existe pessoas gays ou pessoas de cor ou transsexuais; um em que não existe racismo, capacitismo, privilégio cisgênero, intolerância contra neuroatípicos. Mas isso é um apagamento problemático e também uma mentira sobre esses livros. Os Membros do Submundo não se posicionam a favor de pessoas LGBTQ+ porque pessoas de cor e LGBTQ+ estão nos livros; eles não foram consumidos na metáfora. (Eu sei que os escritores da série disseram que não existiam homofobia no mundo do Caçadores de Sombras, apenas Feiticeiro-fobia, mas isso é a série, não os livros e eles possuem mundos diferentes e alicerces. Eu percebi que essa é uma pergunta que eu recebo muito desde que a série lançou e às vezes eu me pergunto se isso é um pergunta de confusão entre dois mundos diferentes. É fácil disso acontecer.)

Metáforas de preconceito na fantasia são complexas e elas raramente funcionam como uma comparação justa (em outras palavras, tem uma diferença entre dizer que essa fantasia te faz lembrar de alguma coisa do mundo verdadeiro e dizer que essa situação na fantasia é exatamente igual a alguma coisa do mundo verdadeiro. Por exemplo, uma das coisas interessantes sobre True Blood é que fez vários paralelos deliberados entre “direito dos vampiros” e direitos LGBT+ referindo-se a vampiros “saindo do caixão” e “Deus odeia presas” em placas da igreja. Do mesmo jeito, esses vampiros eram também predadores violentos que regulamente matavam e comiam pessoas. O argumento de que Simon “basicamente parou de ser a minoria” (mesmo enquanto era judeus) é parecido com dizer que True Blood estava dizendo que gays matam e comem os seus vizinhos. Eu tenho certeza na verdade que eles não estavam. Eles estavam alcançando uma ressonância – o eco de uma situação do mundo verdadeiro que daria uma camada de relatabilidade e de mostrar o pontos deles sobre diferenças. Mas eles não estavam criando uma comparação literal de “essas coisas não tem nada a ver” senão eles não teriam vampiros arrancando a cabeça das pessoas.

Então: os Membros do Submundo são discriminados? Sim, às vezes por Caçadores de Sombras, que são um pequeno específico grupo. Eles se “posicionam” por um grupo minoria específico? Não, eles não podem porque eles acessíveis como uma metáfora para qualquer grupo marginalizado ou grupos que seus direitos foram diminuídos. Também: o mundo como um todo não discrimina os Seres do Submundo porque ele não sabe que eles existem ou privilegia os Caçadores de Sombras porque eles também não sabe que eles existem. Seria uma coisa se isso fosse uma fantasia alta e Caçadores de Sombras e Membros do Submundo fossem tudo que existissem, mas esses livros estão posicionados no nosso mundo e os personagens experienciam intolerâncias, racismo e homofobia do mundo real por causa disso.

“Iz,” Alec disse cansado. “Não é como se fosse uma grande coisa ruim. São varias pequenas coisas invisíveis. Quando Magnus e eu estávamos viajando, e eu liguei da estrada, o Pai numa perguntou como ele estava. Quando eu me levanto para falar em reuniões da Clave, ninguém ouve, e eu não sei se é por eu ser jovem, ou se é por outra coisa. Eu ví a mãe falando com uma amiga sobre seus netos e no segundo em que eu entrei na sala elas se calaram. Irina Cartwright me disse que era uma pena que ninguém nunca herdaria meus olhos azuis agora.” Ele encolheu os ombros e olhou em direção a Magnus, que tirou uma das mãos da roda por um momento e a colocou sobre as de Alec. “Não é como se fosse um machucado do qual você possa me proteger. São milhões de pequenos cortes de papel todos os dias”

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“Ele machucou você. Isso faz muito tempo, e eu sei que ele tentou se desculpar por isso, mas –” Bat encolheu os ombros. “Talvez eu não desculpe tão fácil”.

Maia expirou. “Talvez eu não seja também,” ela disse. “A cidade na qual eu cresci, todas aquelas meninas brancas ricas e mimadas, elas fizeram eu me sentir uma porcaria porque eu não era como elas. Quando eu tinha seis anos, minha mãe tentou me fazer uma festa de aniversário da Barbie. Eles fazem uma Barbie negra, você sabe, mas eles não fazem o resto das coisas que vêm com ela – coisas de festa, enfetes de bolo e coisas assim. Então tivemos uma festa para mim, com o tema d euma boneca loira, e notas essas garotas loiras vieram, e todas elas riram de mim escondido”

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Se nós levarmos a teoria adiante (Caçadores de Sombras são OS privilegiados e Membros do Submundo são OS marginalizados) isso significa que Alec, como um Caçador de Sombras Gay é mais privilegiado que o Simon, um vampiro hétero. Que o Ty, que seria preso em um instituto de saúde mental se a Clave descobrisse sobre seu autismo, é mais privilegiado que o branco, rico, imortal e poderoso Malcolm Fade. É falar que quando Cristina encontra um saudável, branco, hétero, e misógino lobisomem macho em Dama da Meia Noite que tenta forçar uma atenção sexual pra cima dela, ela, uma mulher latina, é a personagem privilegiada por ser uma Caçadora de Sombras e ele um Membro do Submundo (apesar de Sterling indiscutivelmtnete, dado que ele viver fora do mundo sobrenatural, nunca ter experimentado um ínfimo de preocnceito por isso.) Então estou certa de que você pode ver onde está o problema.

Isso também apaga o judaísmo do Simon totalmente. Declarando sem ressalvas que Simon se tornar “parte de uma comunidade privilegiada” significa ignorar o fato de que Simon é judeu; que ele decide em Contos da Academia dos Caçadores de Sombras que ele vai continuar praticando, e que ele é o único protagonista judeu escrito por dois escritores judeus que eu tenho conhecimento de terem ido para a lista de melhores vendas do ano passado. Ele não pensa em ser um vampiro como se ele estivesse se preparando para a transformação – ele nunca quis ser um e nunca consentiu em ser um, nem se tornou parte da comunidade como Raphael apontava – apesar de ele depois pensar em ter sido um membro do submundo quando lida com vampiros e os preconceitos dos caçadores de sombras. Ele pensou na coisa importante para ele: seu Judaísmo, o que ambos ele não poderia e não quereria desistir. Para mim é pessoalmente doloroso pensar que para qualquer leitor, o status de Vampiro para o Simon é mais importante que o de um judeu praticante.”

Acho que às vezes é possível se apegar tanto a uma metáfora que você esquece do mundo real que envolve essa metáfora e a flexibilidade de metáforas em geral. A situação Shadowhunter/Submundano poderia sim representar o sistema privilegiado e marginalizado do nosso mundo: às vezes é assim. Contudo, também pode representar a forma como governos totalitários abusam de seu próprio povo: há alguns ecos na história e em eventos recentes dos Shadowhunters do genocídio Cambojano, da violência Estalinista contra intelectuais e resistentes. Há também ecos de brutalidade policial — o que os Shadowhunters têm é o privilégio da Lei, especificamente: A Lei é o que lhes permite promulgar intolerância em nome da justiça, e quando eles abusam de seus poderes, tem ressonância na maneira que a polícia abusa de seus poderes e usa o privilégio conferido a eles na sua autoridade de matar e abusar dos desamparados e marginalizados. Tem também ecos na forma que soldados executam ordens imorais dadas por seus superiores: os Shadowhunters são instruídos a obedecerem a Clave, e uma das formas de saber quem é a Equipe do Bem em qualquer série das crônicas Shadowhunters é que eles questionam essa obediência. Tudo isso são ecos e ressonâncias: não estão dizendo que os Shadowhunters são a polícia, ou os militares dos EUA, ou o Khmer Vermelho; as ressonâncias fornecem contexto e espero que adicionem sentido de realismo a uma situação que é fantástica por natureza.

(Também é uma ideia inteligente não comprar totalmente o que os Shadowhunters estão vendendo sobre si mesmos. Eles pensam que são especiais, melhores e incríveis, mas os livros constantemente questionam e problematizam isso. Shadowhunters também pagam um preço bem alto pelas suas runas e senso de superioridade: eles morrem cedo e com frequência, experienciam violência brutal e constante e as pressões de uma sociedade repressiva que permite pouca divergência de uma norma idealizada.)

Há razões para os Submundanos nunca terem sido construídos para serem um grupo específico marginalizado e sua situação nunca teve a intenção de ser limitada a uma situação—por exemplo, é muito difícil não olhar com desconfiança para o argumento de que Submundanos representam uma “raça” específica quando você pode se tornar Submundano e depois deixar de ser um: quando você pode, como Simon fez, muda qual tipo de criatura mágica você é, porque há absolutamente nenhuma correlação disso com o que uma raça ou etnia significa no nosso mundo.

Então sim, Simon se torna um Caçador de Sombras: no entanto, o que eu não vejo reconhecido aqui não é apenas sua etnia e religião, mas o fato de que ele se torna um Caçador de Sombras em parte porque ele está ciente do preconceito dos Caçadores de Sombras, e luta contra a intolerância que eles mostram não apenas contra Integrantes do Submundo, mas também contra os seus. Ele faz parte da Aliança Entre Caçadores de Sombras e Integrantes do Submundo de Magnus e Alec. Ele continua a trabalhar pela mudança dentro do sistema, sem dúvida algo que quase ninguém mais poderia fazer, porque não há quase nenhum outro Integrante do Submundo que se tornou Caçador de Sombras. É estranho para mim considerar Simon como simplesmente ascendendo a uma altura de privilégio feliz quando ele é de fato muito mais como alguém que se tornou um policial, a fim de erradicar a corrupção e racismo na polícia e traz seu próprio conhecimento de marginalização (que ele ainda experimenta) com ele.

É por isso que Simon em “Contos da Academia dos Caçadores de Sombras” está constantemente lutando e driblando as regras em nome de sua consciência social em evolução, embora eu entenda se você ainda não leu os Contos. Uma das coisas sobre ter tido uma inundação de novos leitores entrando na fandom por causa do programa de TV é que eu vi um monte de argumentos baseados na ideia de que TMI é toda a história de Integrantes do Submundo e Caçadores de Sombras, ou toda a história destes personagens. Eu vejo pessoas falando sobre personagens tendo um final feliz ou triste em TMI, mesmo quando esses personagens continuam a aparecer fortemente nos livros seguintes e não poderiam por qualquer conta razoável ser considerados como tendo qualquer final, feliz ou triste – a menos que você pensou que TMI foi a única série de livros sobre Caçadores de Sombras que existiu, em vez de uma parte de uma mitologia maior em curso. Em nenhum sentido a história de Simon terminou: você não tem ideia de se ele permanecerá sendo um Caçador de Sombras ou não. Talvez se você considerar o fato de que TMI não é uma história que terminou para Simon, mas sim uma que continua, o fato de que ele fez parte de duas espécies mágicas até agora, e pode muito bem passar a se tornar outra, vai soar menos mal para você? Afinal de contas, isto tudo não está “depois de toda uma série de batalhas pela igualdade entre espécies / raças”, isto está “no meio de toda uma série de batalhas pela igualdade entre espécies/raças”. Normalmente, o meio de uma história não é o lugar melhor para tirar todas as suas conclusões. 🙂

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