“A Viúva Silenciosa”
Sidney Sheldon e‎ Tilly Bagshawe
Record – 2018 – 448 páginas

Charlotte Clancy, uma jovem au pair americana, desaparece sem deixar vestígios na Cidade do México. O caso acaba sendo arquivado, mas suas consequências são devastadoras. Uma década depois, um assassino perigoso está à solta nas ruas de Los Angeles. E já fez duas vítimas. Mas o único elo em comum entre elas é a psicóloga Nikki Roberts. Nikki ainda está muito abalada com a recente morte do marido. E sua vida sofre outra reviravolta quando uma de suas pacientes, Lisa Flannagan, e o rapaz que Nikki considerava como filho, Treyvon Raymond, são brutalmente assassinados. Mas, apenas quando sofre um atentado é que a psicóloga tem certeza de que ela é o verdadeiro alvo desse assassino impiedoso. Atormentada por um acontecimento do passado e vendo a polícia em um beco sem saída, Nikki contrata o detetive particular Derek Williams, um homem que não tem medo de sujar as mãos. Ele trabalhara no caso de Charlotte Clancy, mas agora, anos depois, encontra nas anotações de Nikki Roberts um nome que chama sua atenção, e essa nova investigação o conduz a um caminho perigoso de volta ao passado. Numa cidade corrupta, onde não se sabe quem é inimigo e quem é amigo, Nikki Roberts precisa correr contra o tempo para descobrir a verdade por trás desses crimes antes que ela seja a próxima vítima.

Eu sempre fico insegura pra começar uma resenha sobre um livro que poderia ter sido muito bom e não foi – olha o spoiler da resenha! –, mas acredito que seja algo natural. Ninguém quer realmente falar mal do trabalho dos outros, ainda mais sobre algo que lhe é tão caro. Explicando o contexto do livro pra explicar a dimensão: Sidney Sheldon é considerado o escritor mais traduzido do mundo, com seus 32 livros traduzidos para mais de 51 idiomas e mais de 300 milhões de cópias vendidas ao redor do mundo. Ele morreu em 2007 e seu nome já havia virado praticamente uma marca (porque além dos livros de romance, ele também escreveu livros de contos e ainda era roteirista de séries de TV e filmes, além de já ter dirigido filmes também), então sua família teve a ideia de contratar uma escritora que “continuasse” a escrever com o nome dele. Claro que o nome de alguém que escreveu tantos livros e é tão conhecido assim imediatamente chamou a atenção para os “novos livros” da autora Tilly Bagshawe, a escolhida para continuar o legado, que passou a assinar com seu nome e o nome do falecido autor, como se fosse uma parceria.

Preciso ainda apontar que Sidney Sheldon teve um impacto muito, mas muito mesmo, grande em minha vida. Quando eu tinha 13 anos e ainda incerta se deveria fazer a faculdade de direito por indicação de um professor, li “A Ira dos Anjos” e tive certeza absoluta que era direito mesmo que eu queria fazer. Eu era tão louca por ele que eu juntava meu dinheiro da mesada pra comprar seus livros, por isso, quando soube que uma autora, autorizada por sua família, iria continuar a escrever seus livros, eu torci o nariz, mas fui tentar ler a obra que ela escreveu “continuando” um livro dele (todos os livros do Sidney eram livros únicos, apesar de haver alguns outros livros com personagens já existentes, mas nenhuma série realmente). Odiei. Tentei ler mais uma obra que continuava outro livro do Sidney. Odiei mais ainda. Estava já disposta a ignorar os livros da Tilly com o nome do Sidney quando “A Viúva Silenciosa” foi publicado e estava tendo boas reviews. Como falei na coluna de Lançamentos Literários Brasileiros de dezembro de 2018 (leia AQUI), resolvi que daria uma última chance com esse livro. Dei. E confirmei que estava certa em querer não ler mais.

Começo a chorar. Sei que isso é errado. Queria que houvesse outro caminho.
Mas querer nunca consertou nada.

Me desculpo pela introdução longa, mas precisava contextualizar tudo.

Mas agora vamos ao que importa: a trama da “Viúva Silenciosa” começa 10 anos atrás, com o sumiço da estudante Charlie Clancy no México. Sob seu ponto de vista, descobrimos que a garota se apaixonou enquanto estava no país e estava indo encontrar seu amado (enquanto “Cilada” começa a tocar no fundo…), o que obviamente não sai lá muito bem. Não temos maiores informações sobre até o presente, quando o ponto de vista passa para Nikki Roberts, uma bem-sucedida psicóloga que está em luto pela morte do seu marido, Doug, há um ano, em um acidente de carro. A partir dai, a narrativa vai se interligando com diversos personagens, o que termina quebrando o ritmo da escrita e até mesmo nos confundindo porque são muitos pontos de vistas, e nem todos honestos. A personagem que está dando a sua visão do que está acontecendo mostra como vê os acontecimentos, mas existem personagens que estão escondendo informações – e Nikki é uma deles. O fato de ficarmos especulando o que os personagens estão escondendo é o grande ponto alto do livro, sem sombras de dúvidas (como quando a melhor amiga de Nikki reflete sobre os arroubos de raiva que a protagonista anda tendo, o que nos leva a ter certeza de que ela está mentindo e escondendo informações).

Essa mulher tem dois lados, pensou Williams.
Um que está no controle das próprias emoções. E outro que não está.
Um que vive no mundo real. Outro que se refugia na fantasia.
Um que conta a verdade. Outro que mente. Até para si mesma.

A história começa a desenrolar realmente quando uma paciente de Nikki é morta. Outra morte afeta Nikki logo em seguida com toda força, a fazendo começar a questionar o que estava acontecendo, e, claro, atraindo atenção da polícia para ela. Dois detetives entram na trama: Lou Goodman e Mick Johnson. Enquanto o primeiro parece acreditar em tudo que Nikki conta, Mick tem um ressentimento profundo da psicóloga, deixando claro que não acredita nela e acha que a mulher é uma psicopata. O livro tenta nos incutir também essa dúvida que Mick tenta plantar, mas não acreditei e não duvidei nunca da sanidade de Nikki, o que tirou parte de uma possível trama dúbia para mim. Diante da falta de apoio que encontra na policia, depois de quase ser atropelada propositalmente, Nikki contrata um detetive particular, Derek Williams, o qual investigou o caso que abre o livro: o desaparecimento de Charlie Clancy, há 10 anos, no México. Deu pra sacar que tudo estava interligado ai, não é mesmo?

Agora preciso aqui fazer um parêntese porque, pra mim, os 2 melhores personagens do livro se encontram no paragrafo acima: Derek e Mick. O primeiro, um cara que tentou ser policial e não conseguiu, se tornando assim detetive particular, se encontra desmotivado com sua vida depois de se separar. Não convive com seu filho e sua vida parece estagnada, sem perspectiva, sem rumo, até a chegada de Nikki. Foi, de longe, o personagem que mais me apeguei e mais torci, e não porque ele seja o mocinho da história (não é), mas porque ele é um dos poucos que está simplesmente tentando fazer o certo. No final, nem sempre os bons são recompensados.

Já Mick Johnson… é difícil falar desse personagem porque todos nós já encontramos um homem como ele em nossas vidas. Um cara que acredita que a vida tem muitos tons, que não é só preto e branco, que os fins justificam os meios, preconceituoso, racista, cheio de si e, por incrível que pareça, coerente. Dentro do seu mundo fechado e cheio de respostas para tentar justificar suas ações horrendas, Mick é coerente. Odioso e coerente, o que nos dá a visão de como pessoas assim são capazes de agir, e, consequentemente, nos faz pensar sobre. Existe toda uma trama paralela para ele que envolve racismo e outras motivações, mas, infelizmente, são tantos personagens e tantos acontecimentos que esse enredo fica de lado, o que é uma pena porque o que tinha potencial de ser a melhor coisa do livro se perde por superficialidade e somente algumas informações pinceladas aqui e ali. Seja como for, Mick é o personagem que você despreza pelos motivos certos: ele merece ser desprezado.

Nikki respirou fundo e começou fazendo uma descrição do detetive Mick Johnson: contou sobre a hostilidade feroz e a paranoia em relação a ela, a determinação de vê-la como a autora dos crimes, em vez de vítima.
— Ele disse na minha cara que achava que eu tinha inventado a história do cara que tentou me atropelar. Um absurdo! O parceiro dele é uma pessoa muito mais sensata. Detetive Lou Goodman.

Depois da entrada dos dois policiais e de Nikki contratar Williams, o caso começa a desenvolver, e assim, a trama do livro. Nikki tem basicamente 4 pacientes fixos: Lisa, amante de um homem bem mais velho; Lana, uma atriz que envelheceu e não lida bem com isso; Carter, um banqueiro paranóico e Anne, uma violinista frágil que está fugindo do seu marido. Sinceramente, nenhum dos 4 me despertou qualquer simpatia real, mesmo com Anne sendo bastante desenvolvida, já como Nikki sente uma atração bastante grande pela paciente, quebrando seu código de ética. No final das contas, posso afirmar que os 4 personagens não estão ali por coincidência: a autora tentou fazer diversas tramas se cruzarem em uma grande reviravolta que chegou ao acaso da vida, mas somente desperdiça algumas dessas personagens com o nada.

Talvez esse seja um dos piores defeitos da “Viúva Silenciosa”: uma trama que tentou envolver subtramas, criando um emaranhado de vidas que se cruzaram ao sabor da sorte e que, no final, ficou vazio. Vazio porque não conseguimos torcer pelos personagens e nem dá pra simplesmente aceitar o final que alguns tiveram de tão rápido que foi – parece que quando chegou a página 360 do livro, a autora se deu conta da quantidade de páginas e resolveu terminar tudo bem rapidamente, enquanto outras tramas ficam à sua imaginação a escolha e resposta que você dará as perguntas que foram levantas, tudo culminando em um desfecho que é previsível desde o meio do livro.

Desde cedo também havia aprendido que, embora o dinheiro nem sempre comprasse felicidade, a falta dele sempre trazia sofrimento.

No final das contas, talvez se “A Viúva Silenciosa” fosse um livro com o nome da própria Tilly, eu não cobrasse tanto da trama. É um livro de suspense que você pode ler em dois, três dias, e se divertir fazendo teorias (e eu aposto que você acertará porque eu acertei a teoria que formei à página 74), esperando o desenrolar da trama e aonde os personagens terminariam, mas quando me lembro de livros de Sidney Sheldon e suas tramas, eu me sinto profundamente frustrada. Se você tem curiosidade de conhecer o autor, eu realmente não indico começar por essa “fase” e sim começar lendo alguns dos seus livros mais conhecidos: “A Ira dos Anjos” ou “O Reverso da Medalha” ou ainda o clássico “Se Houver Amanhã”. Pode confiar.

O livro ressoa, bem distante, a trama de “A Outra Face”, o único livro de Sidney Sheldon com um protagonista masculino (o autor era conhecido por escrever mulheres protagonistas fortes, e, posso afirmar, conseguia), aonde um psiquiatra se envolvia em uma trama de mortes e afins ao se envolver com uma paciente. Mas, a grande diferença é que em no livro pioneiro a trama não se estende por 448 páginas arrastadamente – o livro é curto com apenas 240 páginas. Depois de tanto ler Sidney Sheldon, eu realmente me ressinto com a decisão de sua família de continuar seu legado dessa forma, somente para publicação de livros aonde muitos fãs vão comprar simplesmente pela “marca”. Falta muito, mas muito mesmo, para Tilly ser merecedora de um legado tão grande, sucumbindo ao peso de um nome que é infinitamente maior do que ela – e melhor.

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