“As Mil Partes do Meu Coração”
Colleen Hoover
Galera Record – 2018 – 336 páginas

Autora best-seller do New York Times aborda relacionamentos e transtornos mentais em uma narrativa que discute os limites do que é normal. Para Merit Voss, a cerca branca ao redor da sua casa é a única coisa normal quando o assunto é sua família, peculiar e cheia de segredos. Eles moram em uma antiga igreja, batizada de Dólar Voss. A mãe, curada de um câncer, mora no porão, e o pai e o restante da família, no andar de cima. Isso inclui sua nova esposa, a ex-enfermeira da ex-mulher, o pequeno Moby, fruto desse relacionamento, o irmão mais velho, Utah, e a gêmea idêntica de Merit, Honor. E, como se a casa não tivesse cheia o bastante, ainda chegam o excêntrico Luck e o misterioso Sagan. Mas Merit sente que é o oposto de todos ali. Além de colecionar troféus que não ganhou, Merit também coleciona segredos que sua família insiste em manter. E começa a acreditar que não seria uma grande perda se um dia ela desaparecesse. Mas, antes disso, a garota decide que é hora de revelar todas as verdades e obrigá-los a enfim encarar o que aconteceu. Mas seu plano não sai como o esperado e ela deve decidir se pode dar uma segunda chance não apenas à sua família, mas também a si mesma. As mil partes do meu coração mostra que nunca é tarde para perdoar e que não existe família perfeita, por mais branca que seja a cerca.

 

O novo de livro de CoHo chegou ao Brasil pela Galera Record em 2018 com uma capa linda, e a promessa de uma história que trata sobre diversos temas como: transtornos mentais, depressão, relações amorosas e familiares, suicídio, questões LGBT+, incesto e outros. Posso afirmar que Colleen com certeza cumpriu sua promessa.

É difícil falar sobre qualquer livro da CoHo sem dar spoilers, mas sobre esse particularmente, já que ele é todo cheio de mistérios e qualquer informação que eu entregue à você, leitor, pode estragar sua experiência.

Merit Voss é um dos membros da enorme família Voss. Eles incluem o pai, sua mãe biológica, Victória Voss, sua madrasta (que era enfermeira de sua mãe), também Victória Finney-Voss, o irmão mais velho, Utah, sua irmã, Honor e o irmão mais novo, fruto do casamento de seu pai com a madrasta, Moby. Todos eles vivem em Dólar Voss, uma antiga igreja adquirida pelo pai de Merit por motivos que não são realmente motivos para sair por aí comprando igrejas (entre eles simplesmente não gostar de um cachorro). Dólar Voss, que recebe esse nome por ser dividida em quatro partes (Quarto 1, 2, 3 e 4).
Quarto 1: Sala de estar/cozinha
Quarto 2: Dormitório de todos os filhos/quarto de hóspedes/banheiros
Quarto 3: Dormitório do pai de Merit e sua madrasta, Victória
Quarto 4: Porão onde vive a mãe de Merit e seus irmãos, também Victória (sim, a mulher mora no porão da casa-igreja do ex marido com a atual onde vivem todos os filhos e seu enteado (?)).

Antes de virar uma bola de neve, a estória realmente começa de uma maneira legal, quando Merit (que possui a estranha mania de colecionar troféus que não ganhou), conhece um estranho, Sagan, ao tentar adquirir mais um de seus troféus. A conexão entre eles é instantânea. Eu shippei esse casal NA HORA. Sério, a dinâmica entre eles é muito muito bonitinha. Ninguém pode dizer que CoHo não sabe fazer o romance acontecer (quando quer).

Só que é aí que as coisas começam a ficar muito muito estranhas. Não só para Merit, mas toda a ideia do livro no geral. Eu amo Colleen Hoover. Amo amo amo amo. Muito. Tenho muito a agradecer a ela por tudo que descobri e todas as opiniões que formei graças aos livros dela, mas se eu tiver que ser sincera, As Mil Partes do Meu Coração foi mais um erro do que um acerto.

Por que? Vamos lá. Quando comecei a ler o livro, achei que a autora estava tentando contar uma estória. Ao longo das páginas eu vi que não. Apesar de estar contando uma estória, o objetivo de CoHo era falar sobre alguns temas muito importantes como a depressão, suicídio, relações familiares, etc. E ela decidiu fazer isso da única maneira que sabe: escrevendo um livro. Para um “manual de debate” sobre esses diversos temas que, SIM, devem ser debatidos, “As Mil Partes do Meu Coração” não serve. Não porque seja ruim, não é isso. É só que possui muitos elementos de tudo. Muitos temas a serem debatidos em 300 páginas, e acredito que quando você tenta pegar muito de tudo, não consegue se aprofundar em nada. Diferente de “É Assim Que Acaba”, um dos livros de CoHO (você pode ler a resenha AQUI), que trata sobre a violência doméstica e é uma OBRA PRIMA e um dos meus títulos favoritos de todos os tempos da vida e do universo, “As Mil Partes do Meu Coração”, ainda que seja válido para trazer essas questões a tona, não é lá muito coerente.

Além da autora ter exagerado na quantidade de temas polêmicos que quis abordar (vamos de novo porque ao longo do livro a lista só cresce: relações familiares, relações amorosas, depressão, doenças mentais, traição, questões LGBT+, refugiados, incesto, suicídio), como se isso não fosse o suficiente, ela acrescentou MUITOS elementos estranhos ao livros. MUITOS. Aqui vão alguns deles:
– Uma casa que era uma igreja
– Uma adolescente que tem uma obsessão que não é coerentemente explicada por troféus antigos.
– Estranhos aleatórios que entram e saem da casa da família Voss e usam Kilt e simplesmente se mudam para lá por nenhum motivo consistente o suficiente.
– Cães que devem ser enterrados e desenterrados de locais suspeitos
– Uma mãe que mora em um porão do ex marido e não sai do porão há sei lá, 2 anos?
– Um Jesus Cristo de plástico que usa roupas de datas festivas

É tudo demais. Demais para ser levado a sério como um livro que trata de temáticas importantes. Demais para ser crível, e, ao menos que seja explícito na capa/verso/sinopse de um livro que ele se trata da uma utopia ou magia ou fantasia ou algo assim, acredito que a história deve ser algo em que consigamos acreditar, algo com que consigamos nos identificar. Minha impressão depois de terminar o livro é de que nenhum dos fatos da estória poderia ter acontecido em correlação com tantos outros. Que não existe nenhuma parte do mundo onde tudo isso poderia acontecer ao mesmo tempo.

O que mais me deixa triste é que, apesar da narrativa ser TOO MUCH, todos os personagens são muito bem construídos e (como quase todos os personagens da CoHo), muito muito humanos. Me identifiquei muito com alguns aspectos da personalidade de Merit, me identifiquei ainda mais com a dificuldade apresentada no tema de relações familiares, mas tudo isso, que é a magia do livro, a habilidade de nos enxergarmos nele, se perde em meio ao turbilhão de elementos da história. Se você não liga para coerência, vá em frente, leia o livro, existem SIM, partes dele que realmente valem a pena e que nos dão muito em que pensar. E provavelmente, se a autora tivesse dividido essa variedade de temas e elementos em diferentes obras, todas seriam um sucesso, porque algumas partes da estória nos dão sim, muito em que pensar.

Por fim, não vou dizer para vocês não lerem esse livro. Toda a leitura é válida e sempre há algo que pode ser adquirido em uma estória. Nessa, em particular, alguns aprendizados bem relevantes.

Por fim, decidi dar duas notas. Uma para a estória em si, e uma para as temáticas abordadas no livro. Não seria justo da minha parte dar uma nota para as duas.

ESTÓRIA:

TEMAS ABORDADOS:

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