Sinopse: Duas irmãs lutam para mudar o próprio destino no primeiro volume de uma série de fantasia repleta de romance, ação e intrigas políticas. Em Viridia, as mulheres não têm direitos. Em vez de rainhas, os governantes escolhem periodicamente três graças — jovens que viveriam ao seu dispor. Serina Tessaro treinou a vida inteira para se tornar uma graça, mas é Nomi, sua irmã mais nova, quem acaba sendo escolhida pelo herdeiro. Nomi nunca aceitou as regras que lhe eram impostas e aprendeu a ler, apesar de a leitura ser proibida para as mulheres. Seu fascínio por livros a levou a roubar um exemplar da biblioteca real — mas é Serina quem acaba sendo pega com ele nas mãos. Como punição, a garota é enviada a uma ilha que serve de prisão para mulheres rebeldes. Agora, Serina e Nomi estão presas a destinos que nunca desejaram — e farão de tudo para se reencontrar.

Fogo, respire
Água, queime
Terror, amaine
Seu reino terminou.
Fogo, respire
Água, queime
Estrela, guie
Sua irmã chegou.

Ju: Como diz na sinopse do livro, “Graça e Fúria” conta a história de duas irmãs: Serina Tessaro, a irmã mais velha que passou a vida inteira criada para ser uma garota “perfeita” e submissa, a garota que devia ser escolhida pelo herdeiro como uma das Graças dele (garotas que acompanhavam o herdeiro e eram todas tratadas como esposas dele, sendo escolhidas três a cada três anos que se passem) e Nomi, que é a mais nova e que nunca acreditou que as coisas tinham que ser daquele jeito: odiava a ideia de ter que servir sempre, andar com a cabeça baixa, sendo uma verdadeira rebelde.

O livro começa quando Serina foi escolhida para representar sua cidade no baile do herdeiro, onde ele escolheria as três graças e ela leva Nomi para ser sua aia. A ideia de ser uma Graça parece ser bem envolvente. Em um mundo onde mulheres não tem voz ativa para nada, uma Graça poderia – cumprindo bem seus deveres –, ter regalias e presentes, viver bem e confortável, além de poder dar uma vida confortável para a própria família e é nisso que Serina pensa quando aceita fazer parte disso, para muito desagrado de Nomi.

Quando elas enfim estão na capital, Nomi tem um encontro com o herdeiro – um encontro que não devia ter acontecido, obviamente – e ao enfrenta-lo, acaba chamando a atenção para si. Então o herdeiro escolhe Nomi como sua Graça ao invés de Serina, para surpresa de todos ali e também deixando Nomi quase louca com a escolha do príncipe herdeiro, porque isso era algo que ela nunca tinha pensado em fazer. Serina fica muito preocupada com a irmã mais nova, além de um pouco magoada, principalmente porque era sabe como a mais nova é com regras.

Então, por uma obra do destino, as duas são pegas com um livro no quarto e aquilo é tido como uma quebra grande de regras, afinal, mulheres não são autorizadas nem mesmo a aprender a ler e Serina toma a culpa para si, querendo privar sua irmã de ser castigada por aquilo e então as coisas começam a tomar um caminho muito mais sério.

“A lei proibia que as mulheres lessem. Na verdade, a lei proibia que fizessem praticamente qualquer coisa além de parir, trabalhar em fábricas e limpar a casa de homens ricos. Nomi não conseguia aceitar aquilo.”

Virna: Existe coisa melhor do que ler um livro no qual suas expectativas estão lá em cima e ele atender todas elas e até mesmo superar? Pois começo afirmando que “Graça e Fúria” conseguiu isso comigo. Descobri o livro pesquisando para a coluna de “Lançamentos literários brasileiros” do mês de Julho (e você pode ler AQUI) e fiquei bastante surpresa ao ver que o livro iria sair aqui no Brasil basicamente ao mesmo tempo que em língua inglesa pela Editora Seguinte. Assim que li a sinopse, eu soube que realmente era o tipo de livro que eu gosto: Distopia. Duas irmãs. Girl Power. Eu estava completamente fisgada e fiquei esperando essa belezinha ser publicada.

Pegando de onde a Ju parou ali acima, não posso falar nada mais já como qualquer coisa a partir desse ponto é um spoiler tremendo do enredo principal do livro, mas preciso ainda pontuar algumas coisas: Quando o livro começa, você acredita que Serina, a irmã mais velha que tem 17 anos, deseja a vida de uma graça por todos os motivos que naquele mundo é a “carreira” mais proveitosa: ser uma Graça para ela significa segurança não só pra ela, mas para seus pais, Nomi e Renzo, o irmão gêmeo de Nomi, os dois com 15 anos. Serina se apresenta bastante ansiosa com a possibilidade de se juntar ao que viria a ser as primeiras graças escolhidas, imaginando que enfim a vida iria mudar para eles.

No começo do livro, eu acreditei que iria ficar bem entediada com a irmã mais velha, já como ela deseja ansiosamente aquela vida que aos olhos do leitor, é de subserviência e acreditei que todo o plot da força e revolução viria com a mais nova. Eu estava errada. Oh, amigos, como eu estava errada!

“— Minha mãe me criou para nunca confiar em outras mulheres, porque sempre estaríamos competindo por algo. Mas não é verdade. Veja como cuidamos umas das outras aqui. — Ela encontrou Tremor entre o bando. — Nós nos curamos. — Ela olhou para Jacana. — Dividimos comida. — Ela pensou em Petrel. — Morremos umas pelas outras. — Seus olhos se encheram de lágrimas.”

Ju: Quando a Virna me disse para ler o livro e eu comecei, eu logo pensei que ia odiar a Serina. Eu até perguntei pra ela qual das duas irmãs do livro era a favorita dela, porque eu não podia acreditar que ia aguentar a Serina apenas lidando com a magoa que ela estava da irmã e se lamentando por não poder seguir a vida para a qual ela foi treinada, mas sem dar muitos spoilers sobre, eu preciso falar que o desenvolvimento dela é um dos melhores desenvolvimentos que eu já vi em um livro.

Geralmente eu estou acostumada com meninas que já são badass desde o inicio, que já são completamente girlpower e lutam pelo que acreditam, então chegou a Serina, cheia de graça – com perdão da piadinha – e me conquistou conforme ela mesma foi amadurecendo no livro e aprendendo a viver nessa nova realidade que gira em torno dela.

Nesse mesmo tempo, eu que achei que ia amar a Nomi fui começando a me irritar com ela porque eu não achei ela só rebelde como eles a chamam no livro, mas ela também é impulsiva até demais e acaba sempre metendo os pés pelas mãos. Claro que muitas escolhas que ela faz ali são escolhas que ela acredita estarem certas, mas realmente chega um ponto que começa ser um pouco frustrante.

“Na época em que a ouvira, aquela era só mais uma história, mas agora Nomi a sentia ressoando dentro de si. Serina a amava àquele ponto — o suficiente para se sacrificar por ela.”

Virna: Acho que ainda precisamos contextualizar mais o universo porque estávamos focadas nas personagens: em Viridia, o Superior (tipo um Rei, só que com outro nome mesmo) tem todos os poderes e funciona na base da sucessão da monarquia mesmo. Enquanto os homens vão pra escolas e tem uma gama de profissões que podem escolher (mas, lembrem-se, é basicamente uma monarquia!) as mulheres são relegadas aos cargos mais simples, sem nem ao menos poderem aprender a ler – e tudo isso é trama do livro, coisa que me deixou completamente encantada. Não é simplesmente porque os homens são cretinos (erm… hahahaha) e não querem que as mulheres leiam, mas sim porque eles têm medo delas. Acreditem em mim quando eu digo que isso é MARAVILHOSO e quando você ler, você vai concordar comigo.

Acho que foi isso que mais amei na trama e no universo do livro: o poder das mulheres está lá. Mesmo quando tiram esse poder de nossas mãos, mesmo quando tentam fazer com que as mulheres se tornem nada em uma sociedade patriarcal, nós temos o poder: nós temos a força dentro de nós.

Enquanto vamos vendo Nomi descobrir mais sobre tudo isso na corte, tendo de aprender a dançar e a ser uma graça, tudo próxima do herdeiro Malachi e seu irmão mais novo Asa, vemos Serina incorporando toda a força que as mulheres precisam para sobreviverem: e é LINDO de se ver.

As irmãs, nessa altura do livro, estão separadas, e por isso temos 2 pontos de vistas de narração. Não posso dizer onde Serina está já como é um spoiler, mas a medida que o plot dela começa, você não consegue mais parar de ler. Se torna impossível. Como a Ju comentou acima, o arco dela é um dos mais complexos e maravilhosos no quesito desenvolvimento de personagem: de uma garota que nasceu para ser a Graça, agora temos uma garota com a Fúria correndo em suas veias.

“De alguma forma, enquanto encarava as outras lutadoras e as mulheres assustadas e famintas que as observavam, as palavras de Oráculo fizeram sentido. E sua raiva surgiu.

A líder do bando tinha razão. Tudo naquele mundo, até as prisões, colocavam as mulheres umas contra as outras enquanto os homens só observavam.”

Ju: Sim! Eu fico completamente encantada também com o fato de que os homens têm na verdade medo das mulheres e do que elas podem se tornar se elas se unirem (e não podemos dizer que isso não aparece um pouco na nossa sociedade atual, não é mesmo?). O melhor dos dois pontos de vista, como a Virna falou que tem, é que nós podemos ver realmente como funciona o pensamento e os sentimentos das duas garotas, o contraste que elas têm tanto de personalidade como de desenvolvimento.

E nisso não podemos deixar de falar também dos romances. Eu sinceramente não consegui comprar nenhum dos romances. Enquanto de um lado tem um que tudo que acontecia entre eles eu pensava “poxa, moço, você não fez mais que a sua obrigação”, no outro tem um romance que simplesmente não dá pra comprar porque está escrito com todas as letras assim estampado que é uma cilada enorme. É aquele típico caso que a gente vê a tempestade vindo antes da própria mocinha da história. E agora vou deixar a Virna falar mais sobre isso.

“Com a voz baixa, sabendo do risco que estava correndo, ela murmurou: — Porque todos têm medo do que aconteceria se resolvêssemos lutar.

Virna: Mas nem tudo pode ser perfeito, não é mesmo? E aqui temos o problema de 90% dos livros: o romance. Como a Ju tão bem falou, um dos romances o cara não faz mais do que a obrigação dele (tá, vou dar mais um crédito pra ele porque na posição dele, ele quebrou várias regras ali, mas ainda assim, não dá pra gente dizer muito sobre a personalidade dele) e o outro romance… é “Rainha Vermelha” todo de novo. Não preciso falar mais do que isso: quem leu vai entender e vai sacar aonde que o romance ali vai. É TÃO obvio que meus olhos reviraram até eu ver meu cérebro. Nunca vou entender essa mania que as autoras têm de tentar fazer um personagem que (supostamente!) é atormentado e malvadinho e o outro é um verdadeiro herói, maravilhoso e honrado – parem, só parem. Isso é não é crível e deixa quase impossível de acreditar na personalidade desses personagens porque ninguém é tão bom ou tão mal assim.

Mas graças aos deuses da leitura, o romance é inversamente proporcional ao peso que a trama das irmãs tem em “Graça e Fúria”, por isso o romance tem peso zero, no final das contas, já como o que realmente importa aqui é a descoberta do poder das mulheres e o relacionamento entre elas, o amor de uma irmã pela outra: é uma garota se tornando uma mulher enquanto a outra vai aprendendo que seus atos impulsivos trazem muitas consequências e ela terá de arcar com eles. O romance me fez não dar 5 estrelas no livro, mas, nem de longe afetou a experiência de acompanhar a jornada de Serina e Nomi. O livro termina em um gancho incrível, que realmente faz a gente querer ler logo o 2º livro (a autora nos respondeu no twitter falando que o livro sai em inglês em julho de 2019. A gente aposta que a Seguinte vai trazer ele por essa data também).

Ainda preciso falar de uma determinada cena do capitulo Trinta e Sete: não vou falar o que é, mas foi LINDO. LINDO. LINDO. O poder das mulheres transbordou das páginas e eu queria que esse livro se tornasse um filme só pra eu levantar e bater palmas nessa cena. Agora, fazendo essa resenha e me lembrando de ler a cena, me arrepiei. O clímax do livro chega como um tiro em nosso coração, mostrando que toda mulher tem a fagulha dentro si, aquela fagulha que espera para irradiar e se transformar em uma fogueira que vai queimar o mundo inteiro em uma revolução. Não vamos sentar e esperar. Não vamos nos calar. Não mais.

Ah, quero deixar claro que apesar de nossa parceria com a Companhia das Letras (e a Editora Seguinte, por consequência), não recebemos o livro para resenha: estamos resenhando porque realmente gostamos dele e acreditamos que ele tem uma mensagem importante para passar para todas as garotas. Não se conformem. Levantem. Lutem, irmãs: não uma contra a outra, mas contra a sociedade que quer nos impor o que devemos fazer. Nós podemos mais. Nós somos mais.

“- Eu não sabia o que fazer.
Petrel apertou o ombro dela antes de tirar o braço.
Resista. Sempre.

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