Crítica- The Post: A Guerra Secreta

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“Kat Graham (Meryl Streep) é a dona do The Washington Post, um jornal local que está prestes a lançar suas ações na Bolsa de Valores de forma a se capitalizar e, consequentemente, ganhar fôlego financeiro. Ben Bradlee (Tom Hanks) é o editor-chefe do jornal, ávido por alguma grande notícia que possa fazer com que o jornal suba de patamar no sempre acirrado mercado jornalístico. Quando o New York Times inicia uma série de matérias denunciando que vários governos norte-americanos mentiram acerca da atuação do país na Guerra do Vietnã, com base em documentos sigilosos do Pentágono, o presidente Richard Nixon decide processar o jornal com base na Lei de Espionagem, de forma que nada mais seja divulgado. A proibição é concedida por um juiz, o que faz com que os documentos cheguem às mãos de Bradlee e sua equipe, que precisa agora convencer Kat e os demais responsáveis pelo The Post sobre a importância da publicação de forma a defender a liberdade de imprensa.”

O que falar sobre The Post? Bom, acho que posso começar com o fato de que esse filme não poderia ter chegado em hora melhor, considerando quem está no comando das coisas no Estados Unidos. Não foi difícil perceber as alfinetadas e indiretas para o novo, mas nem tão novo assim, residente da casa branca. E também posso dizer que foi ótimo.

Steven Spielberg nos leva de volta para a guerra do vietnã, mostrando a realidade dos soldados em guerra, e talvez soe repetitivo, afinal quantos filmes não existem sobre guerras por aí? Mas a grande diferença é que esse filme não é um ‘filme de guerra’, ao mesmo tempo que é. Pelos olhos de ambos Katharine Graham e Ben Bradlee, interpretados por Meryl Streep e Tom Hanks respectivamente, nos somos levados aos bastidores das informações. Somos levados para o grande trama do filme. As notícias.

Escândalo do Watergate. O filme gira em torno disso, ou melhor, é a jornada para isso. Se você não faz idéia do que o Caso Watergate se trata, tentarei resumir da melhor forma possível. Durante a guerra, estava claro para todos que os Estados Unidos iria perder, não tinha nenhuma possibilidade para vitória, entretanto o governo e o Presidente Nixon mentiram para a população, dando falsas esperanças e mandando seus filhos, inocentes, para a guerra, sabendo que seria em vão, e aqueles rapazes morreriam por nada. Simplesmente nada.

Katharine Graham, a nossa protagonista, é recém chegada dona do jornal local The Washington Post, que foi dado a partir do seu pai para seu marido e então ela herdou quando o mesmo cometeu suícidio, e uma das que é mencionada várias vezes durante o filme é como foi injusto da parte do seu pai ter passado o jornal para o seu genro ao invés de sua própria filha. Talvez por conta disso, e outras como ser tratada como se sua opinião simplesmente não importasse em uma sala cheia de homens, Katharine sempre foi uma pessoa um tanto quanto reprimida. Entretanto, mesmo tímida e quieta do jeito que era, Katharine logo se encontra em uma situação que nunca imaginou que iria se meter, depois que o New York Times revelou alguns segredos confidenciais da Casa Branca, o The Washing Post acaba conseguindo novas páginas, revelando ainda mais para onde tudo Ela deveria ou não publicar os documentos sigilosos do Pentágono?

Enquanto isso, Ben Bradlee, editor-chefe do The Washington Post, sempre quis um furo. Sempre quis publicar histórias importantes, com essência, entretanto acabava tendo que imprimir sobre o casamento da filha do presidente ou outras coisas triviais. E vemos logo no começo do filme que isso vem desgastando o jornalista, ele realmente faria de tudo para conseguir um furo. Para conseguir uma história. E é exatamente isso que ele faz, depois que o New York Times começa o movimento. Ele corre atrás, investiga, e com ajuda do seu próprio Ben, ele consegue por mãos nos documentos sigilosos, e fica completamente tentado a publicar, sem pensar nenhum pouco nas consequências e no que aquilo poderia acabar dando.

Um dos pontos mais fortes do enredo é o fato de que Katharine acabou de fazer um acordo com a Bolsa de Valores, e se caso acontecesse algum tipo de escândalo ou tragédia, eles poderiam desistir do acordo e isso acabaria levando o The Washington Post para a falência.

Foi incrível a forma como o filme conseguiu me prender, pois eu já sabia da história por completo, mas isso não me impediu nenhum pouco de ficar sentado na ponta da cadeira, ficando angustiado junto dos próprios personagens, e tentando criar tipos de justificações para que os documentos fossem realmente publicado.

Eu acho que é importante ressaltar um grande ponto, Ben Bradlee tinha de tudo para ser o protagonista perfeitinho. Entretanto, ele é tudo menos isso, Ben Bradlee é um dos personagens com defeitos do filme, no começo talvez não seja possível perceber, mas por mais que ele seja a pessoa que estava lutando pelo direito de publicar aqueles artigos, suas motivações são corruptas. Em nenhum momento ele fala que está fazendo aquilo pela população, mas sim por algum tipo de reconhecimento. Talvez até fama.

Porém, Ben não se resume a isso, depois de uma conversa com sua esposa, que é interpretada por Sarah Paulson, ele percebeu que é quase impossível Katharine tomar uma decisão por completo.

Esse filme aborda vários tipos de tema como liberdade de expressão,e a forma como a qual mulheres eram tratadas (e ainda são) pela sociedade e no ambiente de trabalho, o roteiro e a direção não falharam em passar essa mensagem de forma um tanto quanto sutil, mas ao mesmo tempo tanto escancarada. Eu fiquei admirado, pois seria fácil e até mesmo muito bem visto se eles tivessem focado o filme inteiro ao redor disso, ao redor da mulher em ambiente de trabalho, mas eles ficaram em várias coisas, não apenas nisso, e conseguiram retratar todos os temas de forma magnífica.

Tem duas cenas no filme que mostram bem a jornada de Katharine Graham. A primeira é quando ela entra na sala, enquanto ela sobre os degraus, tem várias mulheres do lado de fora, provavelmente esposas e secretarias, e então a porta da sala abre e é revelado apenas homens de terno e gravata. Katharine é a única mulher naquela sala. E essa cena se torna um contraste enorme com uma cena final, Katharine saindo da corte, e toda a mídia indo entrevistar apenas os homens. Ela dá de ombros, e começa a descer os degraus e enquanto desce todas as mulheres do local ficam a olhando. A olhando de forma admirada, de uma forma que mostra o quão importante Katharine Graham era para representação. Elas se sentiam representadas. E Kay parecia uma rainha em meio ao seu povo. Foi uma linda cena, filmada muito bem, o ângulo pelo qual é mostrado o rosto da personagem e das mulheres ao seu redor ficou perfeito.

A iluminação do filme também foi uma das coisas que mais me deixaram de boca aberta, e eu não podia deixar de mencionar. A forma como quase todo o filme se passa de noite poderia ser uma complicação, pois cenas de noite geralmente ficam com a iluminação e fotografia a desejar, mas foi em uma cena em específico que eu percebi o quanto estava sendo feito com cuidado a decisão da iluminação, quando dois personagens estão no escritório do jornal a noite, e tudo está em uma cor que mostrava que estava de noite, que a luz do local era fraca, mas ainda assim foi um colírio aos olhos.

Outro tema que eu não posso deixar de mencionar, é o tema que eu considero a grande lição do filme. O orgulho americano. Sabemos muito bem como os estadunidenses se portam, como eles agem em relação seu próprio país. E quantos jovens morreram em vão, apenas para manter esse status, apenas para que o país não fosse ‘humilhado’ com uma perda. Afinal era dos Estados Unidos da América que estavam falando. O melhor país do mundo, não é mesmo? Bom, é isso que eles acham. E foi importante retratar isso no filme, importante mostrar como grande parte dos problemas que ocorrem naquele país são causados por orgulho idiota. Inclusive a própria eleição de Donald Trump ao poder foi causa desse estúpido orgulho, e senso de superioridade.

Foi incrível ver toda a batalha para ver se deveriam ou não publicar os documentos. Claro que tudo foi muito mais romantizado no filme, por vários momentos minha cabeça ficava sussurrando para mim mesmo ‘Se vocês publicarem, a população vai ficar do seu lado. E o jornal vai ganhar fama, vocês não tem nada a perder’ e de certa forma eu até imagino que tenha sido realmente dessa forma que a decisão de publicar os documentos foi tomada. Eles tinham algo a perder? Sim. Mas ganhariam muito em retorno também.

Agora, a cena do filme que mais me tocou. Me tocou de uma forma pessoal mesmo, foi a cena em que eles justificam o motivo pelo qual a corte suprema ficou do lado dos jornais. A frase dita, a forma como eles mostram que o jornal e as fontes de informação são importantes, fizeram meus olhos lacrimejarem. Eu sempre me vi seguindo essa carreira, seguindo no mundo dos repórteres, escritores, no mundo dos jornalistas. E foi no momento em que essa cena passou diante dos meus olhos que eu tive absoluta certeza de que era aquilo que eu queria fazer, não importava as dificuldades.

No caminho de volta para minha casa do cinema eu não me aguentei e comecei a ler o livro da Katharine Graham, que inclusive ganhou um prêmio Pulitzer, e isso já fala bastante do talento da mulher. O livro se chama Uma História Pessoal (Personal History no original), e eu recomendo para todos aqueles que amam história, amam saber dos bastidores de grandes escândalos políticos, e também para aqueles que algum dia sonham em seguir no ramo jornalístico, assim como eu.

Em conclusão, o filme consegue passar todas as mensagens que pretendia passar, consegue desenvolver seus personagens, consegue mostrar a importância dos jornais, a importância da liberdade de mídia, e mostram como as mulheres sofrem, até hoje, no ambiente de trabalho. Tem uma cena no final onde uma secretária é mal tratada pelo seu chefe, e Katharine vê. Era como se fosse uma lembrança a mulher, que talvez sua situação tenha melhorado, mas a situação de várias mulheres no mundo continuava a mesma. Ou talvez ainda pior.

O jornalismo verdadeiro, o jornalismo com sinceridade e integridade parece estar morrendo. Realmente morrendo, a cada postagem sensacionalista, a cada artigo que tratam situações complicadas de forma errada. Mensagens de ódio sendo passadas, reportagens desnecessárias tomando lugar de notícias importantes, como assassinatos de pessoas de classe baixa. E enfim, mil e um exemplos podem ser mencionados, mas a grande mensagem do filme, pelo menos na minha opinião, não é que o jornalismo foi salvo e agora tudo está ótimo. A mensagem foi que se eles conseguiram ter uma vitória, se o jornalismo venceu uma vez, ele pode vencer outras, basta apenas que outras Katharines e outros Bens tomem o primeiro passo, e sigam em frente com suas intuições.

Eu recomendo esse filme para todos. Não tem como não amar.

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